Pessoas Incluindo Pessoas
EP 012 – Expedição 21: Autonomia, protagonismo e inclusão
Expedição 21: Autonomia, protagonismo e inclusão, com Luiza Godoi e Alex Duarte
Neste episódio, os convidados debatem como a acessibilidade comunicacional e o fim da infantilização são fundamentais para o desenvolvimento de pessoas com deficiência intelectual.
O que significa ser adulto quando a sociedade insiste em te tratar como uma eterna criança? Para debater os desafios da autonomia e do protagonismo das pessoas com deficiência intelectual, o 12º episódio do podcast Pessoas Incluindo Pessoas recebe o cineasta e comunicador Alex Duarte, criador do Instituto Cromossomo 21, e a atriz e publicitária Luiza Godoi, que tem Trissomia 21 (síndrome de Down) e é uma das participantes da Expedição 21.
Durante a conversa com os apresentadores Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviati, Alex explica a dinâmica da Expedição 21, um programa de imersão de três dias onde jovens e adultos com deficiência intelectual ficam longe dos pais para vivenciar os desafios e as responsabilidades da vida adulta. O projeto simula uma sociedade verdadeiramente inclusiva, oferecendo o suporte necessário para que os participantes tomem suas próprias decisões.
Acessibilidade Comunicacional e o Fim do Capacitismo
Um dos pontos centrais do episódio é a urgência da acessibilidade comunicacional. Alex Duarte ressalta que, enquanto a sociedade já compreende a necessidade de rampas e intérpretes de Libras, a adaptação da comunicação para pessoas com deficiência intelectual ainda é negligenciada. “A gente precisa transformar esse conteúdo num conteúdo mais simples, mais objetivo, para que ela possa compreender e aprender”, destaca.
Luiza Godoi compartilha sua experiência transformadora na Expedição 21 e como o programa a ajudou a assumir responsabilidades em casa e na vida pessoal. Ela também fala sobre sua carreira no audiovisual, incluindo a indicação a melhor atriz no Los Angeles Brazilian Film Festival pelo filme “Colegas e o Herdeiro”, concorrendo ao lado de Fernanda Montenegro. Com firmeza, Luiza deixa um recado contra a infantilização: “Não me fala que eu sou um anjinho, porque a gente não tem asas. Nós somos pessoas”.
Sexualidade, Educação e o Futuro da Inclusão
O episódio também quebra tabus ao abordar a sexualidade das pessoas com deficiência intelectual, um tema frequentemente silenciado pelas famílias e pela sociedade. Alex e Luiza mostram que o exercício da sexualidade e a construção de relacionamentos amorosos são partes fundamentais da vida adulta.
Por fim, a discussão se volta para a educação inclusiva e o mercado de trabalho. A diversidade não é apenas uma questão de direitos humanos, mas um motor de inovação e criatividade para as empresas. Como conclui Alex, investir na inclusão é investir na própria espécie humana.
Destaques do EP 012 – Expedição 21: Autonomia, protagonismo e inclusão
[04:12] O que é a Expedição 21 e a importância da acessibilidade comunicacional.
[11:07] O relato de Luiza Godoi sobre a experiência de morar longe dos pais e assumir responsabilidades.
[16:45] Quebrando tabus: a sexualidade e a vida amorosa das pessoas com deficiência intelectual.
[20:37] O combate à infantilização: “Não somos anjinhos, somos pessoas”, afirma Luiza.
[28:00] A história por trás do filme “Cromossomo 21” e a mudança de perspectiva de Alex Duarte.
[36:11] O sucesso de Luiza Godoi no cinema e a indicação a prêmio internacional em Los Angeles.
[45:16] Como a inclusão de pessoas com deficiência intelectual impulsiona a criatividade e a inovação nas empresas.
Leia a transcrição da conversa
Podcast Pessoas Incluindo Pessoas - Segunda temporada - EP 012 – Expedição 21: Autonomia, protagonismo e inclusão
[Vinheta][00:00:00:00 – 00:00:04:20]
Pessoas incluindo pessoas. [Música de introdução com batida rítmica e sintetizadores sobe e permanece ao fundo]
Flávia Cintra [00:00:04:20 – 00:00:19:10]
Olá! Este é o podcast do Instituto Paradigma, Pessoas Incluindo Pessoas. Eu sou a Flávia Cintra, tô aqui com os meus colegas Val Paviati, Arthur Calasans… Tudo bem, Arthur?
Arthur Calasans [00:00:19:10 – 00:00:23:20]
Oi, Flávia! Tudo bem, tudo ótimo. E você, Val? Como é que você tá?
Val Paviati [00:00:23:20 – 00:00:33:15]
Eu estou tudo de bom e feliz por mais um episódio do Pessoas Incluindo Pessoas. E hoje temos dois convidados!
Val Paviati [00:00:33:15 – 00:01:58:10]
Hoje estamos recebendo o fundador do Instituto Cromossomo 21. Ele é comunicador, cineasta e uma das principais vozes brasileiras em inclusão e diversidade. Graduado em Comunicação Social, com especializações em Psicopedagogia Clínica, Neurociências e Educação, ele atua há mais de dezesseis anos como palestrante, além de ser autor de cinco livros. Reconhecido como Cidadão Brasileiro pela Academia de Letras e Ciências de São Paulo, o nosso convidado representou o Brasil como palestrante na Organização das Nações Unidas em Nova Iorque e Genebra. Foi o primeiro jovem brasileiro a documentar a missão de paz da ONU no Haiti, trabalho premiado no Festival de Cinema de Gramado. Como diretor, teve o filme “Cromossomo 21” exibido em cinemas de todo o país e premiado internacionalmente. Também é idealizador do Expedição 21, programa de desenvolvimento para pessoas com deficiência intelectual com metodologia validada pela Universidade de São Paulo, e integra o Comitê de Relações Internacionais da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. Uma trajetória que une comunicação, ciência e transformação social. Seja bem-vindo, Alex Duarte!
Alex Duarte [00:01:58:10 – 00:02:15:05]
Um prazer estar com vocês! Muito obrigado, Flávia, Arthur, Valdinéia, Luiza, o Iriã e todo mundo que tá nos escutando, ouvindo esse podcast tão importante e essencial que é o Pessoas Incluindo Pessoas. Um prazer estar com vocês, obrigado.
Val Paviati [00:02:15:05 – 00:03:08:15]
Bem, o Alex já falou o primeiro nome da nossa próxima convidada, mas vamos lá! Ela, Luiza! Recebemos também a atriz Luiza Godoi. Ela é expedicionária 21 e está na sequência do premiado filme “Colegas”, de Marcelo Galvão. Luiza possui presença marcante e talento reconhecido. Construiu sua trajetória no audiovisual defendendo a inclusão, diversidade e o direito de pessoas com deficiência ocuparem todos os espaços, inclusive nos palcos e nas telas. Sua atuação reforça a importância da visibilidade e contribui para transformar a maneira como a sociedade enxerga a deficiência — não como limitação, mas como parte da diversidade humana. Luiza, é uma alegria tê-la conosco aqui no Pessoas Incluindo Pessoas. Seja bem-vinda!
Luiza Godoi [00:03:08:15 – 00:03:30:10]
Olá, senhoras e senhores ouvintes que estejam aqui no podcast Pessoas Incluindo Pessoas. Estou muito honrada de estar aqui nesse momento, entre essas pessoas muito importantes, especiais para todo mundo. Então, muito obrigada, é muito gratificante para mim estar junto com vocês. E bora lá fazer esse podcast!
Arthur Calasans [00:03:30:10 – 00:03:39:00]
Luiza, é muito bom ter voz, né? Muito bom a gente poder falar sobre as nossas questões, sobre os desafios de viver numa sociedade como a nossa brasileira.
Luiza Godoi [00:03:39:00 – 00:03:44:05]
Isso mesmo, é muito bom! E também poder também representar as pessoas com deficiência, né? Mostrar a nossa voz.
Flávia Cintra [00:03:44:05 – 00:04:12:10]
É isso, por isso que a gente tá tão feliz de receber vocês hoje, Luiza, pra gente poder falar sobre as nossas conquistas, mas também sobre os desafios que a gente precisa enfrentar pra ter um mundo mais igualitário, pra viver com mais inclusão, porque o que a gente quer é isso, né? É poder ter a liberdade de ser cada um quem é. E a Luiza e o Alex se conhecem há quanto tempo? Conta pra gente sobre esse encontro de vocês. Luiza é expedicionária também?
Alex Duarte [00:04:12:10 – 00:04:20:15]
Exatamente. Luiza, como é que foi pra você, conta aí primeiro, como é que foi tua primeira relação com o Cromossomo 21?
Luiza Godoi [00:04:20:15 – 00:04:39:10]
Nossa, foi o… foi assim: “Meu Deus, eu quero entrar nessa expedição porque eu quero aprender a morar sozinha, aprender, né, a cuidar de uma casa, né?”. E poder conhecer o Alex, que é um querido pra todo mundo, né, da expedição. Foi algo meio que os dois juntos, e assim que conheci ele foi algo assim de… “Obrigada, obrigada”.
Flávia Cintra [00:04:39:10 – 00:04:42:05]
Como você chegou até o Alex?
Luiza Godoi [00:04:42:05 – 00:04:54:10]
Foi por meio do computador. [risos] Eu mesma me inscrevi, sozinha. Só logo que eu me inscrevi eu falei assim: “Mãe, já me inscrevi, pronto!”.
Alex Duarte [00:04:54:10 – 00:05:28:20]
Pra quem não sabe, Flávia, desculpa te interromper, Luiza, a Expedição 21 ela é um programa de imersão que a gente realiza todos os anos, onde a gente reúne pessoas com deficiência intelectual numa casa, longe dos pais, e lá a gente simula uma sociedade que é verdadeiramente inclusiva, né? Que a gente aposta, acredita, encoraja, traz desafios e o principal, que muito pouco é falado: a gente oferece acessibilidade comunicacional para que a Luiza e outros participantes consigam de fato aprender, né, entender e compreender e se tornarem adultos de verdade.
Flávia Cintra [00:05:28:20 – 00:05:44:10]
Porque é tão importante falar sobre acessibilidade na comunicação. E é um recurso de acessibilidade realmente pouco falado, muita gente tem até dificuldade de compreender o que significa. Fala um pouco mais sobre isso, Alex.
Alex Duarte [00:05:44:10 – 00:06:07:15]
A gente acaba aprendendo, né? Eu me incluo nessa, nas pessoas capacitistas, eu acredito que eu estou em um processo de desconstrução porque nós crescemos e aprendemos a temer tudo aquilo que é diferente. E a gente tem como referência em relação à inclusão social, em acessibilidade, a gente pensa em rampas, a gente pensa em acessibilidade arquitetônica.
Alex Duarte [00:06:07:15 – 00:07:19:20]
E a gente esquece, ou até mesmo audiodescrição, ou a Libras, enfim, e a gente esquece do público das pessoas com deficiência intelectual. Isso foi uma das razões, Flávia e Arthur, de eu realmente decidir trabalhar no Instituto Cromossomo 21 e abrir esse espaço onde eu considero que as pessoas com deficiência intelectual são as mais silenciadas. Porque a gente realmente tem dificuldade de compreender qual é a acessibilidade que uma pessoa como a Luiza precisa, como uma pessoa com deficiência intelectual precisa, que é a acessibilidade comunicacional. Vocês imaginem: a Flavinha, ela tem a cadeira de rodas que é a aliada dela pra que ela possa se locomover, ter a vida dela. A Luiza precisa de uma acessibilidade comunicacional. Então pode ser que em algum momento da nossa conversa aqui eu vá perguntar pra Luiza se ela tá compreendendo de fato tudo aquilo que a gente esteja conversando. Então a acessibilidade comunicacional ela vem no intuito de a gente transformar esse conteúdo num conteúdo mais simples, mais objetivo, pra que ela possa compreender, pra que ela possa aprender, né? E infelizmente as pessoas com deficiência intelectual estão em desvantagem. Se a gente for olhar pra nossa educação hoje aqui no Brasil, a gente não tem uma educação que é pautada por realmente você pegar um conteúdo e adaptar esse conteúdo pra pessoas com deficiência intelectual. E a gente precisa começar a fazer essas perguntas porque senão a gente não tá fazendo inclusão de fato pra todas as pessoas.
Flávia Cintra [00:07:19:20 – 00:07:46:10]
E aí nessa imersão, as pessoas se reúnem nesse ambiente e você faz uma mediação do que seria uma vida adulta num ambiente inclusivo, com recursos necessários pra que essas pessoas possam cada uma ser protagonista da própria vida. Na prática, como que isso funciona? Durante quanto tempo e quais são as dinâmicas pra que isso aconteça de um jeito que essas pessoas depois levem pra vida?
Alex Duarte [00:07:46:10 – 00:09:00:10]
Perfeito, Flávia. A gente começa esse trabalho três meses antes, que é na parte da seletiva. Então pra você participar da Expedição 21 você tem que ter o requisito de ter mais de dezoito anos, ser adulto, e você tem que querer participar da expedição. Às vezes a gente vê muito a vontade do pai e da mãe, né, que o filho esteja lá porque é um projeto que é muito conhecido, que dá visibilidade. A seletiva, o principal requisito pra pessoa ser selecionada é que ela de fato deseja viver essa experiência. Depois disso da seleção, a gente faz uma seleção que contemple as cinco regiões do Brasil pra que seja realmente plural e diversa. E a gente não escolhe a “melhor” pessoa, porque daí a gente tá indo de novo na contramão desses discursos capacitistas, né? A gente quer pessoas que de fato queiram estar lá, independente se tem uma comunicação que é verbal, não verbal, se precisa de comunicação alternativa, se é alfabetizado ou não. A gente quer uma turma que realmente queira aprender. Depois disso a gente faz uma… a gente não chama de anamnese, mas a gente chama de identificação de nível de suporte, pra que de fato a gente consiga construir as dinâmicas em cima dos participantes, do que cada um realmente consiga alcançar no aprender. Então a gente faz uma análise com a família pra entender qual é o estágio que esse participante esteja em relação à autonomia, alfabetização, em relação à vida adulta diária.
Alex Duarte [00:09:00:10 – 00:09:44:15]
A partir disso, então, a gente constrói as dinâmicas da Expedição 21. São três dias, em torno de quase cinquenta horas de imersão, longe dos pais. Eu acho que essa primeira é um primeiro desafio porque parece que é tão simples pra quem tá ouvindo, né? Ficar longe dos pais. Mas a gente tem quase que setenta por cento dos participantes que nunca dormiram longe da família, né? Tô falando de jovens às vezes com cinquenta anos de idade que é a primeira vez que vai ficar longe dos pais vinte e quatro horas. Então ali a gente já tem uma ruptura, né, em relação ao que a gente pensa sobre vida adulta, maturidade, ter o poder de decisão de estar sozinho, de realmente decidir o que que você quer pra sua vida, se você quer realmente A ou quer B. Então parece ser tão simples, mas isso é muito poderoso.
Alex Duarte [00:09:44:15 – 00:10:57:10]
E lá na expedição a gente constrói o que é o dia a dia, né? Que é cuidar de uma casa, entender quais são as responsabilidades. E nisso a gente também insere, né Luiza, você vai lembrar, das regras da Expedição 21, que é meio que uma simulação do que a gente tem aqui fora também, que são as nossas responsabilidades. E quando a gente não cumpre responsabilidades, a gente tem consequências pelos nossos atos. A gente tem uma tendência em acreditar que pessoas com deficiência intelectual não chegam a estágios elaborados de pensamento abstrato, somente concreto, né? Quando eu falo pensamento abstrato é conseguir antecipar algumas situações ou criar hipóteses sobre elas. E lá a gente consegue mostrar na prática que com apoio e suporte eles chegam sim a esses níveis de tomadas de decisões que sejam conscientes de verdade. Então é uma sequência de dinâmicas que são também super divertidas, eles criam vínculos muito fortes lá. Então tem gente que participou da expedição em 2018, se conheceu, fez uma relação de amizade… tem gente que casou, Flávia! [risos] Tem gente hoje que se conheceu na primeira expedição, casou, hoje mora sozinho. A gente tem quatro pessoas que depois que participaram da expedição estão de fato morando sozinhos. Então são resultados muito transformadores, muito potentes também.
Flávia Cintra [00:10:57:10 – 00:11:07:15]
E Luiza, o que te fez querer participar dessa experiência? Conta um pouco desse primeiro momento. Você falou que decidiu sozinha e depois contou pra sua mãe, né?
Luiza Godoi [00:11:07:15 – 00:11:20:10]
É, decidi sozinha. Tava lá, me inscrevendo tudo. Daí eu falei assim… fui olhar, foi feito tudo ali. Falei assim: “Pronto, hora de falar”.
Flávia Cintra [00:11:20:10 – 00:11:22:10]
E qual foi a reação dela?
Luiza Godoi [00:11:22:10 – 00:11:37:10]
Nossa, ela falou assim: “Luiza, você fez isso?!”. [risos] Falei: “É, mãe, eu quero, eu quero participar, né? Eu quero conhecer esse projeto, quero saber o que que o Alex faz, quero saber as ideias, o que que ele pensa”. Comecei a pensar nisso.
Flávia Cintra [00:11:37:10 – 00:11:48:15]
E como que foi ficar longe da sua mãe por esse tempo, assumir responsabilidade, tomar decisão sozinha? Como foi essa experiência pra você?
Luiza Godoi [00:11:48:15 – 00:12:24:10]
Foi muito importante, foi muito bom, né? Ter separado, né, eu e meus pais. Mas ao mesmo tempo foi um momento de tipo: “Mano, é eu que tenho que ter essa minha responsabilidade, eu mesma, né?”. Assim que terminar, tudo o que eu vou me sentir orgulhosa de mim, eu vou contar pra eles. Eu me… eu chorei, eu tive momentos também, né, de emoção, tudo. Mas foi algo que tipo, eu aprendi, eu me aprendi ali, pensar: “Eu vou ver meus pais e eles vão me ver diferente”.
Flávia Cintra [00:12:24:10 – 00:12:26:10]
E teve diferença?
Arthur Calasans [00:12:26:10 – 00:12:28:10]
Que maravilha. De que região do Brasil você é, Luiza?
Luiza Godoi [00:12:28:10 – 00:12:33:15]
Sou do estado do Paraná, Arthur. De Paranavaí.
Arthur Calasans [00:12:33:15 – 00:12:34:10]
De Paranavaí, que maravilha, hein, paranaense! Muito bom.
Flávia Cintra [00:12:34:10 – 00:12:38:15]
E como que ficou a relação de vocês na sua volta? Ficou diferente?
Luiza Godoi [00:12:38:15 – 00:12:59:00]
Não tanto, por sinal. Foi um convívio de normal, como todo dia, mas eu comecei a falar assim: “Não, eu tenho que tomar minhas próprias decisões. E quando eu tomar, depois eu falo com eles”. Comecei a fazer isso. E a cuidar mais de casa, claro, né?
Flávia Cintra [00:12:59:00 – 00:13:01:10]
Cuidar mais da casa?
Luiza Godoi [00:13:01:10 – 00:13:06:15]
Sim!
Flávia Cintra [00:13:06:15 – 00:13:15:10]
Você voltou então com mais habilidades, é isso? Você se sentiu…
Luiza Godoi [00:13:15:10 – 00:13:15:10]
É, comecei a querer, né, fazer as coisas em casa pra mostrar: “Ó, eu fiz isso”, pra eles se sentirem orgulhosos.
Arthur Calasans [00:13:15:10 – 00:13:15:10]
Sim, muito bom.
Flávia Cintra [00:13:15:10 – 00:13:21:15]
Isso é muito bom, né, Alex? Você vê o resultado prático na vida das pessoas que participam do projeto.
Alex Duarte [00:13:21:15 – 00:13:40:10]
Verdade. A gente até fala assim, Flávia, que muita gente acaba romantizando muito a expedição: “Ah, a expedição transforma vidas”. Isso… isso é na verdade uma utopia, não tem como a gente transformar a vida de ninguém. O que a gente faz ali na verdade é dar ferramentas pra Luiza e pras pessoas que participam pra que eles possam de fato se enxergar como adultos.
Alex Duarte [00:13:40:10 – 00:14:35:10]
É muito mais simples do que as pessoas imaginam, né? E é simples no fato de que você está ali com uma pessoa e você escuta essa pessoa com intencionalidade. Você oferece pra ela o mínimo, que é a acessibilidade comunicacional, e você encoraja pra que ela de fato assuma as responsabilidades da sua vida. E os pais, na volta desses filhos, eles passam por algumas dificuldades e desafios. E eu vou dizer que até mesmo eu sofro nessa… nesse momento de feedback com os pais. Porque você imagina: os filhos voltam muito mais empoderados, né? Fazendo questionamentos que antes eles não faziam. “Por que que a minha irmã…”, por exemplo, teve uma agora na última expedição, que as três irmãs tinham feito intercâmbio e ela foi a única irmã que não tinha feito intercâmbio ainda. E ela era a mais velha das irmãs. Ela chegou, a primeira coisa que ela perguntou foi: “Por que que as minhas três irmãs foram, saíram de casa, e eu até agora não saí? Qual o problema? Qual o empecilho disso tudo? Vocês não acreditam na minha capacidade?”.
Flávia Cintra [00:14:35:10 – 00:14:36:10]
Meu Deus…
Alex Duarte [00:14:36:10 – 00:15:20:15]
É… é muito bonito ver esse tipo de transformação. É simples, mas é muito profundo. A gente teve, por exemplo, uma participante com dezoito anos que ela dormia… a Stephanie, a gente pode contar isso porque não é confidencial, os pais relatam inclusive no documentário, em que a Stephanie, ela dormiu dezoito anos da vida dela na mesma… no mesmo quarto que os pais. Então ela saiu… voltou da Expedição 21, a primeira coisa que ela fez foi pegar as coisas dela do quarto dos pais e ir pro quarto dela, né? Então, assumir a sua identidade, a gente saber que a Expedição 21 ela te faz você enxergar que você não estacionou nesse ciclo da vida que é a infância. Você consegue te enxergar como adulto e a partir desse novo olhar você se posicionar: “O que eu quero? O que que é melhor pra mim?”.
Alex Duarte [00:15:20:15 – 00:16:07:10]
Às vezes a gente que não tem deficiência intelectual, né Flávia, Arthur, quem tá nos ouvindo, a gente tem muita dificuldade de entender quem nós somos, o que que a gente gosta. E as pessoas com deficiência intelectual às vezes elas ficam muito vulneráveis e são manipuladas inconscientemente pelo que os outros pensam, o que os pais pensam, o que a sociedade pensa, por conta da deficiência intelectual. Então é muito importante que a gente, enquanto sociedade ou pessoas próximas, estejamos atentas pra gente não roubar esse protagonismo das pessoas com deficiência. Eu mesmo, Alex, preciso tomar um cuidado imenso porque o projeto não é do Alex, o projeto é sobre a Luiza, né? Eu sou apenas uma ferramenta nesse contexto que é o Instituto Cromossomo 21. Mais uma vez o que o Arthur falou da convenção da ONU: “Nada sobre nós sem nós”. Eu acho que essa frase ela é muito importante e precisa ser vivida na prática, né?
Arthur Calasans [00:16:07:10 – 00:16:45:10]
É. Mas eu tenho várias perguntas agora assim, tô aqui borbulhando de perguntas, Alex. Porque como é que fica a pauta… você falou da sua irmã e eu tô pensando na Luiza… como é que fica a pauta da sexualidade? Porque você falou que teve gente que casou… porque é uma pauta da autonomia e algo que muitas vezes amedronta as famílias, né? Dos relacionamentos, “ah, como é que vai ser?”. Isso muitas vezes estaciona o sujeito com deficiência intelectual ou com T21 nesse lugar da infância, né? Desse lugar do anjinho. Como é que vocês abordam isso, seja com as famílias ou seja com os adolescentes que participam desse brilhante projeto?
Flávia Cintra [00:16:45:10 – 00:16:50:15]
E é legal ouvir a Luiza também a respeito disso, né Luiza? Porque você…
Alex Duarte [00:16:50:15 – 00:16:53:15]
A Luiza inclusive tem namorado, não é mesmo, Luiza?
Luiza Godoi [00:16:53:15 – 00:16:56:15]
Sim, eu já namoro aqui, tá vendo aqui no quadro? [Aponta para uma foto ao fundo]
Arthur Calasans [00:16:56:15 – 00:16:59:10]
Tô vendo! Eu tava de olho já, eu tava de olho aí, viu?
Luiza Godoi [00:16:59:10 – 00:17:04:05]
É, ele mora numa cidade ao lado da minha, que é Arapongas.
Alex Duarte [00:17:04:05 – 00:17:07:15]
E que se inscreveu na Expedição 21!
Arthur Calasans [00:17:07:15 – 00:17:10:10]
Ah! [risos]
Alex Duarte [00:17:10:10 – 00:17:13:15]
Vou ver se ele vai ser selecionado, não posso dar spoiler aqui não, viu?
Luiza Godoi [00:17:13:15 – 00:17:14:15]
Ai, ai, ai… Luiza tá com o coração apertado aqui, Alex! [risos]
Alex Duarte [00:17:14:15 – 00:18:26:10]
Arthur, mas essa é uma pergunta muito importante porque a sexualidade ela faz parte da vida, né, do ser humano. E ela não pode ser deslegitimada, né, nesse nosso contexto. E na Expedição 21 a gente tem dois grandes momentos com eles, com os expedicionários, onde a gente tem uma especialista e uma psicóloga que fala diretamente sobre sexualidade, o exercício da sexualidade, que é vital pra qualquer ser humano. E a gente tem o momento de preparação com os pais, pra que esse… esse retorno pra casa também não seja um banho de água fria, né? A gente tá ali preparando eles no nível de empoderamento, de encorajamento, de entender quais são as suas responsabilidades, os seus direitos. Mas você volta pra casa e de repente esse pai novamente ele silencia esse assunto, né? E quando eu falo isso, eu não falo também no sentido de culpar os pais, porque os pais também são vítimas do próprio capacitismo que a sociedade endossa, a sociedade também acredita, né? E por muitos e muitos anos acreditava-se inclusive que as pessoas com deficiência intelectual não podiam ter filhos, porque acreditava-se que eles fossem estéreis, né? Mas na verdade eles não tinham filho porque eles não tinham o exercício da sexualidade pra que pudessem ter filhos.
Alex Duarte [00:18:26:10 – 00:19:00:10]
Eles não faziam sexo por conta de toda uma questão cultural de infantilização em relação a esse estigma em relação à deficiência intelectual. Hoje nós temos inclusive pessoas com Síndrome de Down que casaram e com pessoas sem deficiência intelectual e que têm filhos, né? A gente tem um caso muito… muito rico que é o caso do próprio filme “Cromossomo 21”, que é meu primeiro trabalho, onde mostra a história de uma jovem com Síndrome de Down que se apaixona por um cara como eu, sem a síndrome. E essa história existe aqui no Brasil, que é a Cristina, que ela é filha da Dona Isabel que tem Síndrome de Down e do Seu Zé que não tem, e ela nasceu sem a deficiência.
Alex Duarte [00:19:00:10 – 00:19:45:10]
Então a sexualidade ele é um tema muito importante nesse contexto da expedição porque é uma parte da vida adulta. E ela precisa ser tratada, claro, com muito cuidado e responsabilidade. Hoje a gente tem… não vou saber dizer pra vocês aqui de forma efetiva, mas muitas pessoas com deficiência intelectual são as maiores vítimas de abuso sexual. Há inclusive um projeto incrível pra quem tá escutando que se chama “Eu Me Protejo Brasil”, que foi criado pela Patrícia Almeida, mãe da Amanda que tem Síndrome de Down. Ela é fundadora do Movimento Down, uma das pessoas também responsáveis por criar o Dia Internacional da Síndrome de Down na ONU, a Patrícia. E esse projeto ele fala muito sobre a questão de proteção do corpo, né Luiza? De você entender que esse corpo é seu, quem pode encostar nesse seu corpo. Então tudo isso também é uma cartilha prática do qual a Expedição 21 trabalha efetivamente.
Arthur Calasans [00:19:45:10 – 00:19:46:10]
Muito bom.
Val Paviati [00:19:46:10 – 00:19:55:05]
Luiza, e você? Como a Flávia perguntou no começo, como que foi esse assunto com a família, junto lá no programa?
Luiza Godoi [00:19:55:05 – 00:20:21:10]
Ah, foi algo que minha família sempre me apoiou, sempre me incentivou. E quando cheguei eles foram me empurrando: “Vai, você consegue! Vai!”. E fui. Minha família estava lá sempre assistindo nos stories do Instagram lá do Expedição 21. E vendo eles ali, eu percebi depois do final que eles foram pessoas que foram lá e empurraram, mesmo não estando presente eu.
Flávia Cintra [00:20:21:10 – 00:20:37:10]
Luiza, muita gente que não tem deficiência trata pessoas com deficiência intelectual, especialmente, como se fossem eternas crianças. Como você se sente quando alguém te trata como se você fosse uma menininha, uma criança, sendo que você já é uma mulher adulta?
Luiza Godoi [00:20:37:10 – 00:21:11:15]
Eu me sinto… eu não me… eu vou falar uma verdade pra você, tá? Vou falar a pura verdade. Eu vou lá: “Não fale assim. Fale tal coisa”. Falo assim: “Não me fale que eu sou uma boazinha”. Fala que eu sou muito boa. E não me fala que eu sou um anjinho, porque a gente não tem asas. [risos] Mas sim, nós somos pessoas. Eu falo direto pra pessoa. Eu não… eu me sinto meio… afastada. Mas mesmo assim eu vou e falo.
Alex Duarte [00:21:11:15 – 00:21:25:10]
Você ajuda a corrigir, né Luiza? Eu acho que isso é uma característica dela, viu Flávia? A Luiza ela é muito convidativa pra essa conversa, pra esse debate, isso é muito legal. Inclusive na própria Expedição 21 a gente viu isso acontecer, né?
Alex Duarte [00:21:25:10 – 00:22:30:10]
O quanto a Luiza também foi importante no debate com a equipe dela. Lá na expedição a gente divide eles em equipes, então eles participam de um grande campeonato onde existe um prêmio. E o mais legal nesse contexto é que lá a gente consegue humanizar a Luiza e as pessoas com Síndrome de Down, que elas são pessoas como nós que também têm comportamentos inadequados, né? Porque a gente às vezes quando coloca esse rótulo de anjo a gente acha que é um anjo fofinho, que não tem… que não pode assumir responsabilidades. E lá não, a gente vê inclusive participantes com Síndrome de Down promovendo o capacitismo e tendo preconceito com outras pessoas que eles consideram que têm menos capacidades. Então, por exemplo: tem uma prova externa, de localização, e eles precisam ser um pouco mais ágeis. Aí tem uma pessoa um pouquinho mais gordinha, ou então com mais dificuldade, que é mais lento, eles acabam deixando pra trás. Então até mesmo as próprias pessoas com deficiência intelectual fazem parte desse mecanismo que é o capacitismo. E eles enxergarem isso e entender que é preciso você sair dessa armadilha e ter essa compreensão de que eles também são preconceituosos e que a gente faz parte de uma sociedade que nos ensinou a ser assim, a gente começa a ter consciência. Porque a gente só consegue mudar através da consciência, né? A gente só muda aquilo que a gente tem consciência.
Flávia Cintra [00:22:30:10 – 00:22:35:10]
Então a gente não pode cobrar do outro se a gente não pratica no nosso dia a dia, né?
Arthur Calasans [00:22:35:10 – 00:23:06:10]
Eu queria saber como é que vocês dois estão vendo a sociedade hoje. Vocês acham que tá mudando? Vocês acham que esse trabalho que a gente faz, o Instituto tá aí há vinte anos, você, Alex, há muito tempo escreve sobre, palestra sobre… como é que você vê as mudanças aí no Brasil, na sociedade hoje no Brasil e no mundo? A gente tá começando a olhar diferente? Tá começando a olhar pra diferença? A gente tá vivendo numa sociedade anticapacitista ou ainda tem chão aí pra gente percorrer, Luiza e Alex?
Luiza Godoi [00:23:06:10 – 00:24:08:10]
Eu vejo que as pessoas ainda continuam fazendo, né, capacitismo, né, fazendo preconceito. Mas eu vejo também, além disso, que a sociedade tá querendo. Tá querendo incluir as pessoas com deficiência. A única diferença é que, mesmo eles querendo, eles precisam de adaptação. Adaptação na escola, adaptação na faculdade, adaptação no trabalho. Precisa de fazer essa adaptação nesse meio. E assim que eu percebo isso. Precisa disso, precisa de acessibilidade. Precisa de colocar algo para que a pessoa com deficiência possa se locomover no lugar. Isso já é maravilhoso, mas a gente precisa de gente como… como eles, né? Pra incluir essas pessoas com deficiência, né? Mas continuar sempre lutando, claro, né? Lutar que é bom, sempre falar assim: “Gente, vamos! Vamos embora! Vamos lá!”.
Flávia Cintra [00:24:08:10 – 00:24:43:10]
É, eu acho que o que a Luiza tá trazendo é muito importante porque eu acho que mais do que vontade, é necessário investimento. Investir nas soluções necessárias pra tornar possível a participação com equidade de todo mundo. Não é só querer, né? Tem que investir em treinamento, em tecnologia, em mudança de cultura. E isso exige mais do que só boa vontade, é uma tomada de decisão que muitas vezes também passa por um aspecto econômico, né Alex?
Alex Duarte [00:24:43:10 – 00:26:16:15]
Com certeza. Olha, eu sou muito positivo em relação à vida, né? Mas é impossível a gente olhar pra inclusão social e acreditar que a gente esteja realmente alcançando tudo aquilo que a gente sonha. Eu ainda acho que a inclusão ela se divide nessa visão utópica, né? Eu olho pra trás e eu como um homem sem deficiência, um homem que não tenho familiares com deficiência, que realmente a história da inclusão atravessou a minha vida num momento muito… muito particular. E eu acho que talvez porque eu não tinha um letramento em relação ao que que era de fato inclusão social. Eu sou da geração noventa, que não estudou com pessoas com deficiência, que não teve um amor com deficiência, porque acreditava-se que a deficiência era algo ruim, né? Que era algo estranho. Então eu não contemplava uma parte da diversidade humana. Então nós fomos ensinados dessa forma. É só a gente revisitar mesmo o contexto histórico de como é a formação histórica das pessoas com deficiência no mundo, a gente vai ver uma questão de… de eugenia que se repete até hoje, né? A gente tem ainda hoje situações de eugenia com as pessoas com deficiência intelectual, onde sessenta e sete por cento de pessoas que no… nos Estados Unidos que recebem diagnóstico de Síndrome de Down, os pais, os médicos eles realmente levam esses pais a abortarem o filho com deficiência, sessenta e sete por cento. Cem por cento das pessoas com Síndrome de Down foram erradicadas na Islândia. Então a gente tá falando de uma história que se repete ainda hoje. Então como é que a gente consegue encarar a inclusão se a gente ainda não tem uma cultura que é inclusiva?
Alex Duarte [00:26:16:15 – 00:27:39:15]
Eu olho pras escolas aqui, Flávia, no Brasil, eu não consigo encontrar uma escola que seja de fato verdadeira… verdadeiramente inclusiva com uma pessoa com deficiência intelectual ou que tenha alguns outros atravessamentos, né? Eu tenho, por exemplo, um aluno com múltiplas deficiências no projeto dos pequenininhos, que é o Beni. Ele é um homem… um menininho preto, da periferia, que tem Síndrome de Down, que é autista e surdo, né? E que às vezes falta comida na mesa. Como é que eu falo e como é que eu opero enquanto Instituto Cromossomo 21 sabendo que eu tô numa bolha ainda, né? E a gente tem que reconhecer esses nossos privilégios e essas bolhas pra furar ela e trazer todo mundo pra essa mudança. E isso tudo acontece como a Flávia falou: quando a gente tem investimentos, né? Quando as políticas públicas elas são realmente colocadas em prática e funcionam de verdade. Então esse funcionamento ele precisa de todos nessa luta, né? Da sociedade entender a importância da inclusão, dos políticos também realmente imbuídos pra que encontrem e façam emendas e leis que sejam realmente efetivas e colocadas em prática. A gente tem a Lei Brasileira de Inclusão de 2015, que é a lei mais incrível do mundo, mas que se a gente for colocar… se a gente for ver na prática, pouco funciona. Então eu acho que a gente avançou muito, a gente não pode perder a esperança, mas acho que tem muito caminho a trilhar ainda.
Val Paviati [00:27:39:15 – 00:28:00:10]
Há pouco, Alex, você disse que não fazia parte o tema inclusão na sua vida, né? Nenhuma pessoa da sua família com deficiência. Em que momento os personagens Vitória e Afonso cruzaram na sua vida e você começou a desenvolver e criou essa obra-prima que é o filme “Cromossomo 21”?
Alex Duarte [00:28:00:10 – 00:29:38:15]
Perfeito, Val. Eu sou colega da Flávia, eu me formei em Comunicação Social. Por muito tempo eu trabalhei como redação de… como redator de jornal impresso. Então eu trabalhei sete anos em redação. E quando eu trabalhava lá, caiu pra mim entrevistar uma jovem com Síndrome de Down. Eu sou natural de São Luiz Gonzaga, uma cidade bem pequenininha do interior do Rio Grande do Sul, de trinta mil habitantes. Eu trabalhava num jornal, aqueles jornais antigos com quinze pessoas na sala, sabe? E aí a Adrielle chegou lá porque ela tinha passado no vestibular pra nutrição sem precisar das cotas. Vocês imaginem: quando chegou aquela pauta pra mim entrevistar, a minha única referência de Síndrome de Down eram as escolas especializadas, as APAEs. Então eu achava que eles eram anjos, que eles não eram capazes, né? Então olhava pra Luiza e achava que ela não tinha as mesmas condições intelectuais e pudesse de fato ter uma vida como a minha. Então eu cheguei e fui fazer uma entrevista com perguntas bem limitadas pra Adrielle, né? E é muito engraçado porque eu nunca vou me esquecer dessa cena que a Adrielle chegou pra mim na redação, muito bem vestida, imponente, empoderada. Ela chegou, abriu a porta da redação e perguntou: “Quem que é o Alex aqui?”. Daí eu falei: “Sou eu”. Ela falou: “Antes de você me entrevistar, eu posso te fazer uma pergunta?”. Daí eu falei: “Claro, pode sim”. “Você tem um melhor amigo?”. Aí eu respondi: “Tenho, tenho por quê?”. “Porque eu não tenho. Ninguém me convida pra sair, Alex. Lá de vez em quando me convidam pra tomar um sorvete, mas eu sei que é por obrigação. Mas sabe esses amigos que convivem com você, que te chamam pra sair por tão fora da escola? Eu não tenho isso. Eu queria saber se depois dessa entrevista você gostaria de ser o meu melhor amigo”.
Arthur Calasans [00:29:38:15 – 00:29:43:10]
Caramba! Isso já é o lide da matéria, né? Já deu o lide pra você, já deu a introdução inteira aí sobre a pauta.
Alex Duarte [00:29:43:10 – 00:30:32:10]
Exatamente. E aquilo me pegou num lugar, Arthur… eu não sei se vocês acreditam em astrologia, né? Eu sou virginiano com lua em virgem, vocês imaginem, perfeccionista demais. Aquilo me tocou profundamente no coração e na outra semana eu já trouxe a Adrielle pra minha vida. E quando eu comecei a conviver, Val, com a Adrielle, eu percebi sim que existia um abismo entre nós. Primeiro porque eu era um capacitista, muito preconceituoso, porque você imagina: cidade de trinta mil habitantes, a minha primeira… o meu primeiro medo e receio era o que que as pessoas estavam pensando — isso em 2008 — de eu estar convivendo com uma pessoa com Síndrome de Down. Eu me envergonho de contar isso, mas isso faz parte da minha trajetória e da minha mudança também. E aí eu comecei a insistir nessa convivência e eu percebi que aquele pedido da Adrielle vinha muito mais num sentido de um pedido de socorro mesmo, né?
Alex Duarte [00:30:32:10 – 00:31:50:10]
E eu transformei toda esse… essa experiência de convivência com ela no roteiro do filme “Cromossomo 21”. Mais uma vez: a Adrielle queria viver a vida adulta e ela falava muito pra mim: “Alex, eu quero transar, eu quero fazer sexo, eu quero poder conviver e eu não tenho isso na minha vida. Por que que você não escreve sobre isso?”. E aí eu comecei a construir o roteiro do filme. Só que a Adrielle falava: “Alex, eu quero transar com pessoas como você, homens sem deficiência”. Eu disse: “Ó, você tá sendo preconceituosa!”. [risos] E aí o filme se construiu baseado nessa nossa relação. O filme demorou quase oito anos pra ficar pronto, porque é um filme que foi feito de forma cooperativada, de baixo orçamento, né? E nessa construção de oito anos eu comecei a ser chamado pra dar palestras pelo Brasil. Então eu nunca imaginei na minha vida estar aqui hoje falando com vocês sobre inclusão social. E a partir dessa experiência de convivência com outras pessoas como a Adrielle, eu comecei a perceber algo que a sociedade nos havia ensinado de forma equivocada, né? Se a gente for pegar as pesquisas a partir de 2002, a maioria das pesquisas em educação no país são pra afirmar que pessoas como a Luiza aprendem menos do que nós, pessoas sem deficiência. E isso é um equívoco. É porque a maioria das pesquisas elas eram evidenciadas e pesquisadas, né, construídas sempre na retórica das impossibilidades. “Não vai andar, não vai conseguir falar, demora pra aprender, não se espera muito”, né? E aí a gente nunca inverteu as perguntas, né? A gente nunca foi focar nas potencialidades que todo ser humano tem. E a partir disso eu falei: “Cara, a gente precisa fazer alguma coisa em relação a isso”. E aí foi que nasceu a Expedição 21, o Instituto Cromossomo 21.
Alex Duarte [00:31:50:10 – 00:32:40:15]
E mais uma vez: a dificuldade que a gente via também, Arthur, das pessoas com deficiência falarem sobre elas. A gente via especialistas falando, a gente via médicos, a gente via a sociedade, mas nunca a gente via as pessoas com deficiência intelectual sendo ouvidas de fato. E isso era realmente uma denúncia, porque nós não acreditávamos nas pessoas com deficiência intelectual. A maioria de nós não acredita porque eles às vezes demoram mais pra compreender, eles têm mais dificuldade pra falar e a partir desse recorte a gente já olha pra eles e acha que eles não são como nós. A gente está sempre comparando eles com as pessoas sem deficiência e a gente acaba invalidando quem eles são.
Arthur Calasans [00:32:40:15 – 00:34:07:15]
Alex, a gente tem uma audiência grande de professores no site do Instituto Paradigma, nos materiais que a gente produz, no podcast. A gente acredita que o Instituto tem essa marca, representa e atende muito professores aí pelo Brasil afora. Eu vejo no teu trabalho, Alex, no Instituto e na expedição, algo que tá muito ligado à educação e tá muito ligado à inovação também. Porque quando você falou de comunicação alternativa e aumentativa, é muito o que a escola demanda. Mas como a Flávia disse, precisa de investimento. Não adianta a gente só ficar dizendo porque isso custa. Às vezes você precisa de um tablet com uma comunicação alternativa e aumentativa pra poder dialogar e incluir a pessoa que é não verbal. E isso também demanda formação, demanda tempo. A escola precisa acolher o sujeito com suas características distintas, diversas, né? Como é que você se vê nesse lugar assim? Porque você também representa esse lugar da educação e da formação. Como é que você falaria pra esses professores que estão aí, que muitos enfrentam esses desafios de estarem numa sala com sujeitos não verbais hoje, sujeitos com deficiência intelectual e recebendo essa informação do que é educável, o que não é educável? Essa informação que a gente recebia super capacitista lá de anos atrás tem voltado isso a permear esse ambiente de educação.
Alex Duarte [00:34:07:15 – 00:35:49:15]
Primeiro, o Instituto Paradigma é inclusive… está na minha bibliografia do meu terceiro livro, do “Como Empoderar Pessoas com Deficiência”. A Flávia sempre foi uma grande referência pra mim. A gente já estudou inclusive a história da Flávia dentro do universo do Instituto Cromossomo 21. E falando sobre a educação inclusiva, falando de escola, né? Primeiro dizer que escola é lugar de gente, né? E que todo mundo deveria estar na escola. A gente entende e nós precisamos também ter essa compreensão de que existem deficiências que são deficiências mais complexas e que pra que a gente possa atender a demanda dessa deficiência que é mais complexa, nós precisamos de estrutura, né? Inclusive a escola… a própria escola regular, muitas delas estão sucateadas. Então não existe formação, não existe capacitação pra esses professores. Eles estão muitas vezes desassistidos. Então acho que a primeira coisa é realmente investir na educação inclusiva. Mas a gente não pode pensar que o caminho seja… não existir a inclusão nas escolas regulares. Achar que nós temos que criar apenas escolas especiais como as escolas exclusivas. Pra mim isso se chama segregação. E quando eu falo em segregação, tô falando de um caminho mais próximo da exclusão. Se a gente for revisitar a história da educação inclusiva no mundo, a gente sabe que foi muito importante as escolas especiais num determinado momento porque tirou as pessoas com deficiência de casa. Mas a gente tá num outro momento que a gente não pode regredir, a gente precisa progredir. Então acho que o caminho realmente é esse: é investir na educação inclusiva, em capacitação, trazer mais o endosso de oportunidades e fôlego renovado pra esses professores pra que as pessoas com deficiência estejam no mesmo espaço que nós. Porque eu só acho que a educação inclusiva, a cultura da inclusão só vai mudar através da convivência. Foi assim que eu mudei.
Arthur Calasans [00:35:49:15 – 00:35:50:10]
Muito bom.
Val Paviati [00:35:50:10 – 00:36:11:15]
Luiza, agora a pergunta é pra você! Fiquei sabendo, Luiza, que em 2025 o filme “Colegas” foi premiado em Los Angeles. Eu quero que você me conte como foi essa sensação de pisar no tapete vermelho e representar um grupo de jovens atrizes, atores… me fala como foi essa experiência.
Luiza Godoi [00:36:11:15 – 00:36:37:15]
Foi… pisar no tapete vermelho foi assim: “Pronto, cheguei aonde muitas pessoas podem estar”. Foi a primeira sensação que eu tive. E poder estar ali, né, representando a todos nós, né? Representando ao filme também, o “Colegas e o Herdeiro”. Então poder estar ali já foi um avanço pra todos nós e poder dar voz e mostrar, né, as pessoas com deficiência ali também no cinema.
Alex Duarte [00:36:37:15 – 00:37:06:15]
Inclusive, Arthur, a Luiza concorreu… ó Flavinha, Val… ela concorreu com Fernanda Montenegro, vocês têm noção disso?! [risos] Eu ia falar agora! Não, meu Deus! Ela foi indicada em Los Angeles Brazilian Film Festival, no LABRFF, como melhor atriz e juntamente com a Fernanda Montenegro. Ela só perdeu pra Fernanda, mas ela pode perder pra Fernanda, a gente deixa, né Luiza? [risos] Tudo bem, a vida presta, né? Parabéns!
Val Paviati [00:37:06:15 – 00:37:26:15]
E o filme ganhou o prêmio especial do júri neste festival. Muito bom, né? Muito bom.
Luiza Godoi [00:37:26:15 – 00:37:26:15]
E tanto mais poder estar ali apresentando o filme e as pessoas com deficiência, isso já foi uma honra pra mim poder estar fazendo essa parte e poder trazer aqui pro nosso Brasil, né?
Arthur Calasans [00:37:26:15 – 00:37:39:15]
É o Brasil todo te vendo e te repre… representando um Brasil, né Luiza? Um Brasil diverso, representando a diferença e as pessoas com deficiência. Maravilhoso!
Alex Duarte [00:37:39:15 – 00:38:17:15]
Essa indicação da Luiza acho que ela traz tanta coisa incrível pra gente refletir enquanto sociedade. Primeiro a gente tá falando de representatividade. O sentimento dela de chegar num lugar que muitas vezes é o lugar desejado por todos. Então outras pessoas como ela vão falar: “Nossa, é possível sim!”. Então acho que a primeira coisa é isso. A segunda é da capacidade, né, que você tem, Luiza, de decorar textos, de você segurar um público a assistir o seu filme. Então acho que são tantas mensagens que a gente tem que captar e entender pra gente poder mudar o nosso olhar, né Flávia?
Flávia Cintra [00:38:17:15 – 00:39:12:15]
Sem dúvida que sim. Eu tenho certeza que a Luiza vai arrastar muita gente com esse exemplo, com essa imagem de que se ela pode, outras Luizas também podem. E eu acho que esse é o poder, né Luiza? Da gente abrir estrada pra outras pessoas virem junto. É só caminhar, não é? E trabalhar duro, porque também não é fácil, né? Trabalhar duro e suar! É isso aí. Tem que trabalhar duro, tem que estudar, pra que a gente possa se aperfeiçoar e ocupar cada vez mais espaços, mas com competência, com entregas de qualidade. Porque a gente não quer favor, a gente não quer ocupar esse espaço por compaixão ou só com o marcador da deficiência. A gente quer ocupar espaço pela nossa qualidade de entrega, pelo que a gente tem pra contribuir. E acho que foi isso que você mostrou com a sua história até aqui e com as conquistas que tão jovem você já tem pra mostrar, né? Que é possível com trabalho duro, com dedicação, dá pra chegar no tapete vermelho! Dá pra receber prêmio! É possível.
Luiza Godoi [00:39:12:15 – 00:39:13:15]
É possível. É possível.
Flávia Cintra [00:39:13:15 – 00:39:21:15]
Mas pra isso a gente precisa de oportunidade.
Luiza Godoi [00:39:21:15 – 00:39:21:15]
Verdade. Precisa da família também, né, pra dar apoio, suporte. E todos os profissionais de saúde que trabalham nessa área também, né?
Flávia Cintra [00:39:21:15 – 00:40:05:10]
E essa oportunidade, Alex, você abre nessa janela do projeto que você criou e coloca luz na competência, na capacidade, nas possibilidades. Você inverte a lógica de olhar só pra deficiência e pras limitações e consegue mostrar pras pessoas com deficiência que elas podem, comprovar pra família que é possível e com isso ampliar esse discurso pra todo o universo em volta de cada uma dessas famílias. E é assim que a gente faz esse efeito… um ciclo virtuoso. A gente constrói esse ciclo virtuoso de transformar pelo exemplo. Exato.
Val Paviati [00:40:05:10 – 00:40:10:15]
Pode falar. Quantas pessoas já participaram pelo Expedição 21? Você tem esse número?
Alex Duarte [00:40:10:15 – 00:41:16:15]
Tem, tem. A gente já teve cento e setenta participantes na Expedição 21. A gente tá indo agora pra décima edição. São oito anos de programa. A próxima acontece agora de vinte e sete a vinte e nove. E a gente tá incluindo também, Val, pessoas com deficiência intelectual e autismo agora. Então a gente tá indo pra um outro espaço, né, pra ampliar também outras oportunidades e outras deficiências. Eu sempre disse que a gente tem que entender de gente, mas eu ainda não me sentia como profissional — porque eu também tenho formação na psicopedagogia — então não me sentia ainda preparado pra incluir algumas deficiências complexas e isso era parte do meu capacitismo, né? Então eu tive que realmente vestir essa… esse compromisso, essa responsabilidade pra que todo mundo estivesse nesse espaço e que fizesse sentido pra gente, né? Quero aproveitar esse espaço e também acho que convocar todo mundo que tá assistindo aqui esse podcast, principalmente as pessoas que não têm deficiência, pra realmente compreender o quanto a inclusão ela é transformadora pra todo mundo.
Alex Duarte [00:41:16:15 – 00:42:42:15]
Eu sempre brinco pra quem é pai e mãe, que é um público que me segue bastante, eu digo: quem era você cinco segundos antes de ser… ter o seu filho com deficiência? Você tinha a mesma força de luta pra buscar os direitos dos seus filhos pra outras pessoas? Porque geralmente a inclusão ela só se torna prioridade na minha vida quando ela me atravessa. E não pode ser assim. Porque geralmente a gente precisa de fato acreditar genuinamente e entender a inclusão como algo benéfico pra toda a sociedade. No momento, por exemplo, em que eu acessibilizo uma… uma rampa, a gente pensa que aquela rampa tá sendo apenas… que só pessoas com deficiência estão sendo beneficiadas, mas não: pessoas gestantes, pessoas obesas, né? Então a inclusão, a acessibilidade, ela é um… ela é benéfica pra toda a sociedade. A gente tem que ver a sociedade… a sociedade precisa enxergar a inclusão como algo transformacional pra todo mundo.
Flávia Cintra [00:42:42:15 – 00:43:13:15]
É, e que interessa pra todo mundo, pelo menos em longo prazo, né? Porque todo mundo vai envelhecer e é previsível que a gente tenha limitações nessa terceira fase da vida. Tem uma imagem que a Rosângela Berman sempre traz — a Rosângela Berman é uma ídola que eu tenho, é a minha grande mentora da vida, fundadora do Movimento de Vida Independente no Brasil — e essa imagem são três pessoas, três mulheres atravessando a mesma rua: a primeira grávida, a segunda empurrando o carrinho de bebê e a terceira numa cadeira de rodas. E aí observando a imagem ela aponta que podem ser três momentos da vida da mesma mulher. Então a gente ocupa vários espaços, o nosso corpo se transforma, a gente passa por situações na vida que a gente precisa de mais recursos. E ter esses recursos disponíveis é bom pra todo mundo.
Alex Duarte [00:43:13:15 – 00:44:16:15]
Pra todo mundo, é. Existe uma pesquisa inclusive da Microsoft Brasil em que diz que cinquenta por cento de nós, depois dos sessenta anos de idade, teremos algum tipo de deficiência, seja baixa visão, mobilidade reduzida, né? Então se a sociedade caminhar com essa consciência o quanto é necessário a gente investir na inclusão social… e eu acho que investir na inclusão, Flávia, Arthur, Luiza, Val, quem tá nos escutando, é investir na nossa espécie, a gente amar a nossa espécie, a gente aprendeu a olhar pra espécie humana de uma maneira completamente equivocada e ainda mais hoje numa era que a gente tá vivenciando que é a era da perfeição, né? A gente vai pra internet, eh, a gente vê todas as tendências de filtro, a família perfeita, o Instagram perfeito, então é essa… esse lugar que é um lugar utópico e irreal porque nós somos pessoas reais, imperfeitas. E se a gente começar a construir isso dentro de nós e ter esse letramento, tudo se modifica, né? Então a gente não precisa ter uma deficiência ou ter um familiar com deficiência pra de fato entender a magnitude do que é a inclusão social. A gente tem que viver, a gente tem que conviver, né?
Flávia Cintra [00:45:16:15 – 00:45:50:10]
E Alex, nosso tempo tá acabando, mas eu não posso deixar de dar destaque ao que você traz, que também tem a ver com um ativo muito perseguido pelas empresas, que é a diversidade de pensamento. Quanto mais diverso é um time, mais produtivo, mais criativo, mais resolutivo ele se torna. Excluir pessoas com deficiência intelectual desse processo é um prejuízo muito grande, porque você tira uma parte muito valiosa de uma contribuição que tá ali pulsando e disponível pra acontecer de um outro jeito de pensar, de um outro jeito de ver o mundo, de um outro jeito de consumir, de interpretar conteúdos.
Flávia Cintra [00:45:50:10 – 00:46:18:15]
Então, eh, trazer pessoas com todos os tipos de deficiência, com todos os tipos de experiências culturais, regionais, só torna o processo criativo e de produção mais eficiente e, consequentemente, mais lucrativo. Então eu acho que a Luiza trouxe, né, que ela percebe que as… hoje a sociedade deseja que a inclusão aconteça. E esse desejo não é só humanitário, ele também é um desejo econômico. Porque a inclusão é viável e ela torna os processos inclusive mais lucrativos quando ela é feita com consistência, com coerência, com investimento. E a gente vê isso acontecendo no mundo inteiro em projetos bem-sucedidos como o seu. Parabéns pelo seu trabalho.
Alex Duarte [00:46:18:15 – 00:47:00:15]
Obrigado! Ó Flávia, e essa infor… essa informação que você trouxe pra nós é uma informação científica inclusive, que foi encomendada pelo Instituto Alana junto com a McKinsey, né? Quando você contrata uma pessoa com Síndrome de Down, você melhora cinco pilares da saúde organizacional da sua empresa. E uma delas é a questão criativa. É o quanto o time se torna muito mais criativo, né? O quanto também o ambiente se torna muito mais humano, humano. Então as relações se tornam muito mais poderosas, muito mais potentes. Então acho que existem muitas evidências potentes aí pra gente poder seguir, entender e investir de fato. Eu acho que a única forma de a gente fazer essa mudança, Flávia, eu acho que é a gente ter mais intenção, sabe? A nossa intenção pessoal, perpassar a nossa intenção pessoal, mas também entender como é que a gente coloca isso na nossa vida profissional pra abrir oportunidades pra outras pessoas. Então quem tá ouvindo aqui e não tem deficiência: como é que eu posso tornar o meu time mais diverso? Convivendo com pessoas com deficiência também, consumindo conteúdo de pessoas com deficiência pra que a gente possa entender esse lugar que elas ocupam.
Val Paviati [00:47:00:15 – 00:47:11:15]
Alex, quem quiser conhecer mais sobre o Expedição 21, basta acessar o arroba cromossomo 21 ou mais algum… alguma outra página que você queira indicar?
Alex Duarte [00:47:11:15 – 00:47:30:15]
Maravilha, Val. Então pra conhecer um pouquinho mais sobre o Instituto Cromossomo 21, pode acessar o site www.cromossomo21.com ou pelo arroba do Instagram cromossomo21.com. E aproveitar e você, Luiza, pra você divulgar tua página, teu Instagram aí que a gente quer conhecer mais o teu trabalho.
Luiza Godoi [00:47:30:15 – 00:48:15:10]
Então, como vocês já ouviram um pouco de mim, eu vou me apresentar quem eu sou. Eu sou uma pessoa com Síndrome de Down, uma pessoa com deficiência, já trabalho, sou formada em Publicidade e Propaganda, eu sou atriz, eu sou palestrante, eu sou embaixadora das pessoas com deficiência daqui do nosso estado do Paraná. E para que vocês possam entrar em contato comigo diretamente, é pelas minhas redes sociais, tanto no Instagram que é o @souluizagodoi, no Facebook e no TikTok. Então só entrar em contato diretamente comigo para receber mais informações das pessoas com deficiência e as pessoas com Síndrome de Down também. E claro, entretenimento!
Flávia Cintra [00:48:15:10 – 00:48:18:10]
Sou Luiza Godoi, Luiza com Z?
Luiza Godoi [00:48:18:10 – 00:48:19:10]
Isso mesmo!
Flávia Cintra [00:48:19:10 – 00:48:31:15]
Muito obrigada, Luiza! Muito obrigada, Alex! Que papo gostoso, voou o tempo. Muito bom, parabéns, obrigada pelo seu trabalho. Espero te encontrar em breve.
Arthur Calasans [00:48:31:15 – 00:48:48:15]
Obrigado, Alex, pelo seu trabalho. Luiza, obrigado também pelo seu trabalho. Obrigado pelo tempo de vocês dedicado a esse programa. Quero esses arrobas todos porque eu quero fazer muitas collabs com vocês pra gente bombar esse programa, gente! Esse programa precisa chegar em todo o Brasil.
Alex Duarte [00:48:48:15 – 00:49:09:10]
Por favor! Obrigado. E Flávia, dizer que você é uma grande referência pra nós. Talvez você não saiba o tamanho da tua importância aqui no Brasil, né, como profissional, como ativista, enfim. Então eu acho que você realmente é alguém que… que ajudou o Brasil a construir um lugar mais inclusivo. Então obrigado a você, ao Arthur que faz parte do Instituto, à Val e todo mundo que tá aqui. Obrigado.
Luiza Godoi [00:49:09:10 – 00:49:17:10]
Foi muito gratificante estar com vocês aqui, foi uma honra pra mim. Obrigada e parabéns pelo trabalho de cada um.
Flávia Cintra [00:49:17:10 – 00:49:20:10]
Beijo, gente! Até a próxima.
Arthur Calasans [00:49:20:10 – 00:49:21:10]
Até a próxima!
Val Paviati [00:49:21:10 – 00:49:24:10]
Até, tchau tchau.
Val Paviati [00:49:24:10 – 00:49:28:10]
E este foi mais um Pessoas Incluindo Pessoas. Até o próximo!
[Vinheta de Autodescrição] [00:49:28:10 – 00:49:30:10]
Autodescrição:
Flávia Cintra [00:49:30:10 – 00:49:51:10]
Eu sou a Flávia Cintra, uma mulher branca de olhos e cabelos castanhos. Eu uso um óculos de armação preta, modelo aviador. Tenho nariz grande, olhos pequenos, lábios finos. Tô usando uma blusa de tricô cor-de-rosa e sentada na minha cadeira de rodas motorizada que é verde.
Val Paviati [00:49:51:10 – 00:50:05:10]
Olá, eu sou Val Paviati, uma mulher de pele branca, olhos e cabelos castanhos, cabelos encaracolados. Hoje eu estou usando uma regata preta e estou aqui com o meu amigo Arthur Calasans.
Arthur Calasans [00:50:05:10 – 00:50:30:10]
Olá, gente, tudo bem? Eu sou Arthur Calasans, sou homem branco de cabelo bem curto e barba grisalha. Tenho sobrancelha grossa, nariz grande, os olhos pequenos. Vou fazer o meu sinal em Libras: é o dedo indicador e o polegar sobre a minha sobrancelha, que é bem grossa. Tô usando um boné azul e uma camiseta cinza.
Alex Duarte [00:50:30:10 – 00:50:50:10]
Oi, gente, eu sou o Alex Duarte. Eu sou um homem branco de estatura mediana, boca grande, utilizo barba parecida com o Wolverine. Eh, tenho também olhos pequenos, cabelos pretos. Estou utilizando uma camiseta preta de linho e atrás de mim tem uma televisão e eu estou na minha sala principal do meu apartamento.
Luiza Godoi [00:50:50:10 – 00:51:18:10]
Oi, gente, aqui é a Luiza Godoi. Eu estou aqui na frente de um escritório e eu sou uma menina de baixa estatura, pele branca, cabelos castanhos compridos, uso um óculos oval dourado. Eh, meu nariz é pequeno, boca pequena e estou usando uma camiseta preta e escrita azul “Expedição 21”.
[Ficha Técnica] [00:51:18:10 – 00:51:44:00]
Ficha técnica. Tema: Expedição 21 – Autonomia, protagonismo e inclusão, com Luiza Godoi e Alex Duarte. Apresentação: Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviati. Edição e masterização: Uirá Vital. Transcrição: Celso Vital e Silva. Site e plataformas digitais: Rafael Ferraz e Fabrícia Valeck. [Música de encerramento sobe e encerra]