Pessoas Incluindo Pessoas
EP 013 – Letras, infâncias e vidas com Ana Clara Moniz
Neste episódio, a escritora e criadora de conteúdo Ana Clara Moniz compartilha sua trajetória de busca por independência, o impacto da representatividade e o poder da literatura anticapacitista.
O que significa crescer sem ver pessoas parecidas com você ocupando espaços de destaque? Para debater o impacto da representatividade, o enfrentamento do capacitismo e a construção da vida independente, o 13º episódio do podcast Pessoas Incluindo Pessoas recebe a jornalista, escritora e criadora de conteúdo Ana Clara Moniz.
Diagnosticada com Atrofia Muscular Espinhal (AME) com um ano de idade, Ana Clara transformou suas vivências em narrativas que provocam, sensibilizam e abrem caminhos. Durante a conversa com os apresentadores Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviatti, ela relembra sua infância no interior do Rio de Janeiro, os desafios da adolescência e a importância das redes sociais para encontrar sua “tribo”.
O papel da família e o enfrentamento do capacitismo na escola
Ana Clara destaca que seus pais a criaram para ser o mais independente possível, preparando-a para lutar por si mesma. Embora tenha estudado em uma escola regular com acessibilidade arquitetônica e apoio institucional, ela relata as barreiras atitudinais que enfrentou com colegas e pais de alunos. A escritora reflete sobre como a exclusão na infância e adolescência moldou sua percepção sobre o capacitismo e a impulsionou a buscar sua própria voz.
A internet como janela para o mundo e a vida independente
Na adolescência, as redes sociais foram fundamentais para que Ana Clara encontrasse outras pessoas com deficiência e referências profissionais — como a própria apresentadora Flávia Cintra, que a inspirou a cursar Jornalismo. Ela compartilha sua jornada de mudança para Campinas para a faculdade e, posteriormente, a decisão de morar sozinha em São Paulo. Relembrando os ensinamentos do Movimento de Vida Independente e da ativista norte-americana Judy Heumann, Ana ressalta: “Independência também é falar para o outro a forma como você quer ser ajudada”.
Literatura anticapacitista e o livro "ABPcD"
O episódio também celebra o lançamento de seu livro infantil, “ABPcD: Letras, infâncias e vidas de pessoas com deficiência” (Companhia das Letrinhas). A obra reúne 26 histórias de pessoas com deficiência de diferentes países, gêneros e profissões, de A a Z. Ana Clara explica que o livro nasceu de seu arquivo pessoal de referências, servindo não apenas para educar crianças de forma anticapacitista, mas também para curar a sua própria criança interior.
Destaques do EP 013 – Letras, infâncias e vidas com Ana Clara Moniz
[00:03:51] O diagnóstico de Atrofia Muscular Espinhal (AME) e a criação voltada para a independência.
[00:09:03] A busca por uma escola inclusiva e as barreiras atitudinais na infância.
[00:20:06] Os desafios da adolescência, internações e o enfrentamento do olhar do outro.
[00:31:14] O impacto da representatividade: como Flávia Cintra inspirou Ana Clara a cursar Jornalismo.
[00:38:32] O episódio na faculdade que motivou seu primeiro vídeo e o início na internet.
[00:50:12] A mudança para São Paulo e o conceito de Vida Independente segundo Judy Heumann.
[00:59:05] O processo criativo e a importância do livro infantil anticapacitista “ABPcD”.
Leia a transcrição da conversa
EP 013: Letras, infâncias e vidas com Ana Clara Moniz
Pessoas Incluindo Pessoas
Flávia Cintra
Olá! Esse é o Pessoas Incluindo Pessoas, o podcast do Instituto Paradigma.
Eu estou aqui ao lado da Val Paviatti e do Arthur Calasans, e nós estamos aqui hoje pra receber uma convidada muito querida do Instituto, né Val?
Val Paviatti
Queridissíma! Olá a todos!
É muito bom estar com vocês mais uma vez em mais um episódio do Pessoas Incluindo Pessoas.
Antes de falar da nossa super convidada, quero falar oi, para o nosso querido Arthur Calasans.
Tudo bem com você, Arthur?
Arthur Calasans
Tudo bem, Val. Oi Flávia, Uirá.
Gente, feliz por mais esse episódio. Muito feliz, de receber a Ana!
Flávia
Conta pra gente da Ana então, Val!
Val
Deixa eu contar. Senhoras e senhores, hoje o podcast Pessoas Incluindo Pessoas, recebe com muita alegria a escritora Ana Clara Muniz.
A Ana Clara constrói sua escrita a partir da própria experiência como pessoa com deficiência, transformando vivências em narrativas e provocam, sensibilizam, ampliam olhares, representam olhares.
Val
Sua obra atravessa temas como inclusão, acessibilidade e protagonismo. Sempre com delicadeza, firmeza e encantamento.
Mais do que contar histórias, Ana Clara cria pontes entre mundos, entre pessoas, entre formas de existir.
Nessa conversa, vamos ouvir sobre sua trajetória, seus processos criativos e os caminhos que ela vem abrindo na literatura e na criação de conteúdo anticapacitista.
Prepare-se, para escutar com atenção e talvez, sair daqui enxergando o mundo de um jeito um pouco diferente.
Ana, muito bom receber você aqui!
Ana Clara Muniz
Oi gente! Estou muito feliz de participar depois de uma introdução bonita dessa, né. É até difícil se, se apresentar, mas estou feliz de estar aqui, está contando um pouco da minha história e do que eu faço, e poder dividir esse tempo com vocês.
Flávia
É Ana, a gente tava há um tempão já querendo ter você nesse encontro.
O seu jeito de se comunicar hoje alcança pessoas que tem em você, uma inspiração para mostrar possibilidades que até pouco tempo atrás eram invisíveis. E isso, é, acho que impacta também no jeito das crianças e até dos adultos, se perceberem.
Mas na escola, né Arthur, na escola, essa diferença que hoje a gente percebe que é tão bem-vinda, é, ela também é uma ferramenta, é, de crescimento coletivo, de aprendizagem, e de melhoria até, dos processos educacionais, né?
Arthur
Eu tenho uma pergunta, que é sobre a sua infância Ana, mas eu queria, antes de falar da sua infância, citar um trecho de um livro que eu adoro, que é do Valter Hugo Mãe, que chama “As mais Belas Coisas do Mundo”, em que ele fala que pra não se desiludir, que desilusão é morrer por dentro, a gente precisa se encantar. E o encantamento é a melhor forma de enfrentar a inevitável tristeza.
Arthur
Eu queria perguntar sobre a sua infância, eu falei sobre encantamento no texto, escrevi no texto que te apresenta sobre encantamento, porque, vejo o seu livro como uma forma de encantamento.
Como foi a, essa vida, essa infância, né. O brincar na infância? Aonde você, enfrentou, essa desilusão, e como você usou o encantamento pra enfrentar a inevitável tristeza?
Ana
Eu, sempre fui uma pessoa com deficiência. Eu, não tenho problema nenhum em, me definir assim, porque sempre foi assim que eu me enxerguei. É mais uma característica da Ana Clara.
E, eu fui diagnosticada com um ano de idade, mas já, aos seis meses os meus pais perceberam que tinha algumas coisas diferentes, com o meu desenvolvimento.
Eu fui, a primeira e única filha dos meus pais. E, na época minha mãe muito novinha, tinha 20 anos, passava o dia inteiro ali comigo, e via que alguma coisa tava diferente dos outros bebês que ela conhecia.
E aí, é, começou uma série de exames e acompanhamentos médicos, e uma longa jornada. E eu só pude fazer os exames mesmo que me diagnosticavam com um ano de idade, porque antes disso, na época, tinha exames que nem faziam em bebês mais novos de um ano de idade.
Então, há um ano eu fui diagnosticada com atrofia muscular espinhal, que é uma doença rara, é, progressiva e neuromuscular. E eu gosto de dar esse, esse contexto e contar sobre esse começo, esse diagnóstico, porque ele muda muita coisa, né?
O diagnóstico não é uma sentença, mas eu não sei quem foi, eu não sei quem seria a Ana Clara sem um diagnóstico. E eu nunca vou ter como saber isso.
A minha deficiência ela foi construída em mim assim, e eu fui entendendo o meu olhar sobre a deficiência, de uma maneira muito natural.
Eu, costumo dizer que enquanto as outras crianças aprendiam sobre o mundo, sobre os próprios corpos, sobre as letras, eu também aprendia tudo isso. Eu aprendi tudo isso, mas eu também tinha que aprender como, aprender tudo isso em uma cadeira de rodas, tendo uma doença.
Ana
Eu tinha que aprender sobre, como um corpo humano funciona, mas como meu corpo funciona.
Eu tive que aprender sobre como contar histórias, mas como contar a minha história quando as outras pessoas muitas vezes não queriam me ouvir.
Então, é, isso sempre foi muito forte na minha vida, porque não tinha como separar quem é Ana Clara, quem é a deficiência, quem é a doença, quem não é, quem é a personalidade. Não existe essa separação.
Mas, os meus pais me criaram, mesmo sendo a primeira e única filha, e eles sem nenhuma experiência com crianças ao redor, assim, na convivência, eles me criaram para ser uma criança independente o máximo que eu pudesse.
Eu imagino hoje, já adulta e olhando para trás, eu me pego pensando, né, na minha história, e eu primeiro, que se eu tivesse 20 anos com uma filha, eu não sei nem que, que eu ia fazer! Porque eu tenho 26 e não consigo nem imaginar isso.
Mais de ter uma vivência totalmente diferente das outras mães.
E, me pego pensando o quão eles, já sabiam e já entendiam, que eu ia ter que lutar muito, sozinha!
E eles queriam me preparar para isso. Que por mais que eles estivessem comigo, eles estão, né, na minha vida até hoje, eles lutaram muito por mim, mas eles queriam que eu aprendesse a lutar por mim mesma, sabe?
E foi o maior acerto que eles puderam ter, assim. De me criar com essa vontade de querer fazer as coisas, de querer testar, de querer meter a cara. E se isso der errado, tudo bem, porque todo mundo faz isso, porque eu não poderia fazer, sabe?
Eu acho que isso fez muita diferença na minha vida, na minha, na minha criação. Ao mesmo tempo que, todo mundo ao meu redor pôde preservar a infância da Ana Clara, sabe?
É, isso é muito potente, forte pra mim, porque eu fui, eu falo que eu fui uma criança de hospital. Eu vivi em hospital boa parte da minha vida, assim. Entre idas e vindas, claro, eu não cheguei a morar no hospital de fato, mas eu passava muito tempo internada em hospitais, e, mesmo assim, as pessoas, os adultos a minha volta, eles conseguiram fazer dessa infância um pouco menos difícil, eu acho. Um lugar um pouco mais mágico, então, eu tinha noção da realidade.
Mas esse, encantamento continuou existindo na minha infância e eu pude ser criança como qualquer outra criança, sabe?
Ana
Isso é muito bonito para mim, olhando para trás, é, ver que tiveram essa sensibilidade de permitir que Ana Clara fosse criança e deixar pra se preocupar com as coisas de adulto quando ela de fato for adulta.
Arthur
O Ana, eu acho que, tá claro, até pelo livro que você escreveu, que esse encantamento foi muito forte pra você enfrentar a inevitável tristeza da vida adulta, né.
Então você brincou, essa infância foi preservada, mas como é que foi, esse tempo, na escola? Como é que foi dentro da escola? Como é que foram as relações com outras crianças?
Esse ambiente do brincar, e esse ambiente da escola como instituição mesmo? Como foram as barreiras? O que você enfrentou? Conta pra gente!
Ana
No começo, quando eu ainda era bem, bem criança mesmo, bem novinha, que, tive que começar a ir para a escola, meus pais enfrentaram algumas dificuldades, e eu digo meus pais porque, dessa época específica eu não tenho lembranças. Então, meus pais enfrentaram algumas dificuldades de achar uma escola para mim.
É, eu cresci numa cidade muito pequena do interior do Rio de Janeiro, que é Rio das Ostras.
A gente, né, na época visitava as escolas, e começou a busca de uma escola como qualquer responsável por uma criança.
Mas eu fui negada em algumas escolas.
De fato, essa, é, negação, não sei se pode dizer assim, de fato aconteceu, é, em duas escolas.
É, primeiro que meus pais que é, foram visitar uma escola e aí falaram que não tinha vaga naquela escola.
Ana
E aí a minha mãe, ainda muito sem entender o que estava acontecendo, mas, desconfiada, ligou para a escola no mesmo dia, E aí, na ligação falaram que ainda tinha vaga na escola. Então, eles perceberam que era porque, eles tinham me visto, tinham visto uma menina na cadeira de rodas e enfim, negaram.
A segunda escola por mais, por uma questão arquitetônica, né. Era uma escola de vários andares, e ao visitar a escola meus pais já perceberam isso.
E tinham muitas questões, perguntaram como que ia fazer, e tudo mais, e a única solução era, há, a gente leva ela no colo. E aí minha mãe falou, tudo bem, ok, ela tem três anos, tudo bem levar ela no colo, mas e quando ela tiver seis, sete, oito, nove, dez ou 11. E aí, o que vocês vão fazer? Vocês vão levá-la no colo sempre? A garota vai ficar se arrastando pela escola, como que vai ser isso?
E aí negaram mais uma vez e, enfim. E, eu acredito que tenha sido uma experiência muito, desafiadora e frustrante para os meus pais, eles estavam só tentando matricular numa escola, nem tinha começado, a jornada num ambiente escolar, sabe?
Então, enfim, a gente achou uma escola, que foi a escola que eu estudei toda minha vida. Eu nunca estudei em outra escola, e essa escola era uma escola pequena, mas, o que foi que encantou a gente, que ao chegar na escola, logo na portaria assim, entrava na escola e não existiam escadas. Eram rampas para conectar os andares. Não tinha escada! Não é que tinha a escada e a rampa. Não tinham escadas, só tinham rampas!
Meus pais contam, que ali eles, criou, é, a chama da esperança e acendeu assim, neles, tipo, ok, acho que, vai ser possível!
Eu fui muito acolhida, muito bem recebida nessa escola. É uma escola muito familiar, assim, era uma escola regular.
Então, eu me lembro de crescer sendo, a única pessoa com deficiência. É claro que olhando para trás, talvez existissem outras pessoas com deficiências invisíveis ali, e a gente não sabia né? Mas, deficiência visível, de fato, eu era a única criança.
Mas, a gente e toda a equipe ali da escola fez de tudo para que eu fosse incluída no máximo de atividades e coisas que eu queria e poderia fazer.
Então, eu fui uma criança que fui em todas as excursões da escola, mesmo tendo alta do hospital no dia anterior, no dia seguinte tinha excursão, e eu estava lá na excursão da escola.
Ana
Eu ia em todas as atividades de sair da escola eu ia, e fiz dança, teatro, balé. Tudo o que você possa imaginar, robótica, e, e fui muito acolhida, de fato.
Mas é claro que, uma escola é feita de pessoas, e pessoas, são feitas de opiniões diferentes e criações diferentes. E, eu tive sim dificuldades, enquanto a instituição escola, não, eu fui muito bem acolhida e muito bem recebida, mas enquanto, pessoas que estudavam na escola comigo, e pais de alunos, eu tive algumas dificuldades. E até, é, funcionários mesmo da escola, eu tive algumas dificuldades.
Eu me lembro que, durante a infância, isso não era uma grande questão pra mim. Acho que não deixaram isso ser uma grande questão para mim. Se existiram problemas, eles eram resolvidos antes de chegar até mim. Ou, eles eram até resolvidos ao meu redor, mas eu ainda tava naquele encantamento da infância, isso não era uma questão grande o suficiente para ser um, enfim, um grande problema pra mim.
Mas, é aquilo né, outras crianças que não queriam brincar comigo. Tinha um grupo de crianças que se escondiam num único banheiro da escola que eu não conseguia entrar para brincar dentro do banheiro, e eu ficava do lado de fora. Então, essas situações aconteceram e, é difícil proteger alguém delas.
Arthur
Na sua opinião… Desculpa!
Ana
Não pode falar!
Arthur
Desculpa. Na sua opinião, como é que se enfrenta isso hoje?
Porque eu vejo o seu livro muito como essa ferramenta anticapacitista, e eu vejo o anticapacitismo na educação, um lugar, que a gente enfrenta antes, não durante, não depois que acontece. Mas eu vejo, um lugar em que a gente fala, questiona, antes de acontecer.
Então a gente apresenta esse mundo pros professores principalmente, pras crianças. Mas a gente precisa de um meio.
Arthur
A gente precisa de um lugar de representatividade, protagonismo, e mostrar para as crianças que existe diferença, existe diversidade. Como é que você vê isso hoje?
Flávia
E como que você enfrentou também?
Arthur
Sim.
Flávia
E como foi pra você, porque pra uma menina tão pequena, enfrentar essa experiência de ser excluída por conta, de uma característica, como que foi?
E Ana, em que momento também, você percebeu que o problema que tava todo girando em torno da deficiência, porque acho que é na escola que, isso acontece, que vira essa chave, né?
Ana
Eu, apesar de crescer num ambiente muito acolhedor, eu não posso dizer de maneira alguma, que eu não fui acolhida. Eu fui muito acolhida! É, os diretores da escola, por exemplo, viraram parte da minha família. É, a gente, nós somos muito amigos até hoje. Isso foi muito forte em todo esse processo.
Mas, eu também, apesar de ter muita gente ao meu redor, eu me sentia muito sozinha, desde muito nova. Porque, eu olhava ao redor e eu não via pessoas como eu. E isso foi algo que, talvez tenha, tenha sido isso que virou a chave pra entender que alguma coisa diferente tava acontecendo ali, sabe? É, de olhar ao redor e ver que eu tinha muitos amigos.
Eu, eu brincava, eu ia nas excursões. Eu, era convidada, participava das atividades, eu era uma criança muito ativa, mas era só eu, que tinha uma cadeira de rodas ali.
Ana
Então, às vezes eu ia num aniversário de uma criança e todas as crianças iam brincar no pula-pula, que aqui no Rio chama pula-pula. Não sei se, em São Paulo, em outros lugares do Brasil se chama pula-pula. É, toda as crianças iam brincar no pula-pula e eu não conseguia ir até ali.
Então, essas pequenas coisas despertavam algo em mim que eu ainda não sabia dar nome. Eu não sabia o que era.
Mas, eu, andava na rua e, em todo lugar que eu ia, todo mundo parava e olhava para mim, em todo lugar. É, e isso eram coisas que me chamavam atenção, e me deixavam desconfortáveis.
Eu desde cedo sinalizava isso pros meus pais, que eu, eu era, eu fui criada achando que eu era uma criança muito tímida, porque eu tinha muita vergonha. Eu tinha vergonha, mas aí, crescendo e já dando um pequeno spoiler, pulando 20 anos para frente, é, eu percebo que essa vergonha ela não era porque eu era uma criança tímida, eu nunca fui uma criança tímida.
Eu era criança do fundo da sala que ficava conversando com todas as outras. Eu era criança que se o professor mudasse de lugar na sala, eu ia puxar assunto com outra pessoa, não tem problema. Eu fazia amizade com o porteiro, eu fazia amizade com inspetora, fazia amizade com todas as pessoas que passassem pelo meu caminho. Eu era criança que tinham que chamar atenção pra eu ficar quieta, porque eu não parava de falar. Eu nunca fui a criança tímida.
Mas, eu cresci com essa sensação de vergonha, porque eu chegava nos lugares, todo mundo parava o que tava fazendo e olhava para mim. As pessoas apontavam, as pessoas faziam olhares de julgamento, elas cochichavam perto de mim. E eu, cresci achando que eu era uma pessoa tímida. Eu não gostava…
Eu não gostava dessa sensação de chegar nesses lugares e essas coisas acontecendo.
Val
Eu fico imaginando a Clara sendo aquela aluna do fundão da sala.
Ana
Eu era.
Val
Eu imagino!
Ana
Eu era!
Val
Como foi esse momento também, na adolescência, né. Porque aí você falou que começou a descobrir esses olhares, esse momento já tão sensível na vida, da gente né, de uma moça. Fala um pouquinho pra gente Ana?
Ana
Eu acho que foi na adolescência de fato, que, eu entendi tudo. Não posso dizer que teve um momento específico, que eu tive uma grande epifania e entendi tudo, isso não aconteceu. Mas foi um processo mesmo de entender.
Eu fui me tornando uma criança pra uma adolescente muito tímida, muito fechada. Eu não gostava de ir nos lugares, eu não gostava de falar com as pessoas. Se eu entrasse numa sala que eu não conhecesse ninguém, eu ficava de cabeça baixa assim, até eu ir criando confiança naquele espaço.
E, e meus pais fizeram de tudo, tadinhos, eles me colocaram no teatro, eles me colocaram na terapia. É, eles fizeram tudo o que eles podiam, e tava ao alcance deles pra poder de fato, ver se alguma coisa mudava em mim, né. Mas eu acho que foi na adolescência que eu fui percebendo tudo o que tava acontecendo ao meu redor.
Flávia
Enfrentar esse olhar, né? Enfrentar esse olhar que, ou, a gente se sente atravessado por um olhar, que as pessoas param, olham, parecem que não nos veem, ou evitam nos olhar.
Aquela coisa da mãe puxando a criancinha falando não olha filho, não olha. Ou então aquele olhar, de avaliação, de curiosidade, de julgamento, que a gente também identifica muito cedo.
Ana
Sim!
Flávia
E enfrentar esse olhar exige uma maturidade, uma coragem que de fato é muito difícil pra uma menina, pra uma adolescente.
Ana
Sim!
Flávia
Não dá para se acostumar com isso.
Ana
Não! Eu, já posso dar outro spoiler aqui, até hoje não, não dá pra acostumar.
Mas, o que eu acho que mudou é que naquela época da infância, pré-adolescência, ali por volta de uns 10, 11, 12 anos, eu, não tinha ferramentas pra lidar com isso. Eu não sabia como lidar com isso. Eu sentia muitas coisas, e eu não sabia expressar essas coisas que eu sentia. Eu percebia, eu acho que eu sempre percebi, desde quando as criancinhas lá atrás, não queriam brincar comigo, se escondiam pra não brincar comigo. Eu, sabia o que estava acontecendo, mas eu não sabia como lidar com isso. E aquilo foi meio que sendo deixado de lado até eu entrar na adolescência de fato.
E, na adolescência eu, não posso negar nem um pouco que, foi muito desafiador!
Eu ainda era uma criança, barra adolescente de hospital, então, eu ainda passava por muitos procedimentos médicos e, olhando para trás, eu tive em 2010, quando eu tinha dez anos, eu tive um episódio muito significativo de internação, que eu fui fazer uma cirurgia e fiquei cinco meses no hospital internada, direto, e eu tinha dez anos. E, eu passei por experiências de quase morte.
Ana
E, eu fiquei muito debilitada na UTI, mesmo com respiradores. De os médicos chegaram falarem, olha gente, eu acho que é isso, não vai ter mais o que fazer, enfim.
Mas eu não estou contando isso pra, pra gerar nenhum tipo de, de reação, nem nada específico, mas pra trazer o peso de que eu tinha dez anos. E, isso, essa situação já seria muito pra Ana Clara, de 26, pra Ana Clara de dez anos, foi muita coisa!
E aí, quando eu voltei para a escola, já quase nos 11, eu…
Era criança, era uma adolescente, uma pré-adolescente, que tava careca, porque eu perdi todo o meu cabelo no tratamento do hospital. E tava numa fase de, em que a imagem importava muito.
E o meu corpo era diferente das outras meninas. Eu, enfim, já comecei ali naquela época a suspeitar que talvez, eu não gostasse de meninos, mas isso era uma coisa que eu acabei também, enterrando no fundo da minha cabeça, mas já surgiam questões na minha cabeça. E tudo isso aconteceu ao mesmo tempo em que eu estava quase morrendo no hospital, sabe?
Então, enfim, era muita coisa para lidar. E adolescência é isso, né? Adolescência é muito, é, a gente…
Flávia
É muito difícil para todos nós!
Ana
Sim, pra todo mundo é muito difícil.
E, na adolescência essas questões foram ficando mais, mais expressivas assim, é, os, preconceitos, as exclusões, aos 13 para 14, eu recebi um fora de um menininho, que eu achava que eu gostava, por causa da minha deficiência, e ele expressou isso em palavras, que era por causa da minha deficiência.
Eu não posso dizer que existiu um momento em que eu entendi tudo, mas, essas coisas foram fazendo eu entender aos poucos.
Ana
E aí eu acho que a gente tinha também, um, trabalho dos adultos ao meu redor, da minha família, dos meus pais, mas também da escola, que eu estava lá desde os meus quatro anos de idade, e, enfim, de todo mundo ao meu redor, de tentar Trazer a Ana Clara para um momento em que, ok, até aqui todo mundo lutou por você, todo mundo foi a sua voz, todo mundo falou e brigou, porque você não podia fazer isso sozinho, porque você era só uma criança. Mas agora você começa a ter um pouco mais de voz, você começa a aprender a ter a sua própria voz, e, em algum momento do futuro você vai ter que lutar por você sozinha, você vai ter que aprender a gritar e a falar por você sozinha.
Eu acho que foi na adolescência que isso começou, e que começou esse trabalho de realmente, e aí foi quando eu entrei pro teatro pra aprender a me comunicar, porque, eu tinha muita vergonha. Eu achava que eu era uma pessoa muito tímida. Eu não falava em público e, enfim, não sabia me expressar.
Entrei pro teatro pra aprender a me comunicar, entrei pra terapia pra poder entender o que tava acontecendo, e, enfim, aí eu acho que foi o início de uma, uma jornada em que, da forma que eu me comunico hoje, começou a ser construída naquela época.
Val
E Ana Clara, você disse há pouco, que seus pais te prepararam pra você lutar por você mesma.
E você é do Rio de Janeiro, mas teve um momento que você saiu do Rio e quis ir para São Paulo. De uma maneira totalmente independente.
Essa experiência, essa menina que você falou que era tão tímida, fechada, mas começaram a vir algumas ações que foram mudando, isso também foi o estopim pra você querer mudar totalmente?
Ana
Foi um pouco.
Mas, eu acho que pra a gente chegar lá eu preciso voltar um pouquinho só, pra poder, entender como que chegou nesse ponto de eu querer de fato ir morar sozinha, mudar pra São Paulo e fazer faculdade de jornalismo.
Flávia
É! Pelo que eu entendi, teve um treino, né?
Ana
Sim!
Flávia
É, os seus pais, eles começaram a te provocar intencionalmente, a exercitar esse posicionamento mais autônomo, né? Sem tanta mediação.
Foi meio que um treino que eles começaram a propor na rotina de vocês. Foi isso?
Ana
Foi! Foi mais ou menos isso. Eu acho que a gente não olhava pra isso com esses olhos de…
Flávia
Mas eles tinham essa intenção?
Ana
Mas era essa a intenção, sim. Era essa a intenção totalmente.
Eu acho que, enfim, eles também não sabiam muito para qual caminho seguir, mas eles tinham um objetivo de que era eu lutar por mim mesma, e eu poder me comunicar e, poder ser uma adulta independente.
Assim, é óbvio que a gente não sabia o que era possível, o que não era possível, enquanto a Ana Clara adulta, né. Então, não sabia se eu conseguiria sair de casa, se eu conseguiria fazer faculdade, se eu conseguiria ter um trabalho.
A minha doença é uma doença progressiva. Ou seja, ela piora com o tempo.
Então, a gente não sabia como estaria a Ana Clara, então, a gente nunca tentou, quer dizer, a gente sempre tentou não olhar muito para o futuro, e tentar focar mais no presente e, solucionar as coisas para um possível futuro, mas não fazer planos para o futuro.
Ana
E, eu acho que voltando um pouco ainda na adolescência, mas um pouco mais velha, dessa fase, esse treinamento que eles fizeram comigo foi dando resultados. Eu fui me tornando mais expressiva, eu fui conseguindo trabalhar em terapia, um pouco o olhar, do outro.
Essa questão em específico, o olhar do outro, foi tema na minha terapia até os meus 18, 19 anos. Direto assim, porque era algo que é muito difícil você lidar com. Entender que o problema não é você, que o problema é o outro. E entender o que você pode fazer com você mesma e com o outro, né, para o outro.
Enfim, é, a gente vai chegar lá ainda nessa parte da história, mas nessa época em que tudo estava acontecendo, eu fui me tornando mais expressiva, fui me tornando mais comunicativa. Eu fui entendendo que eu não era uma pessoa tímida, eu fui tendo amigos, eu fui uma adolescente muito teimosa, eu fui uma adolescente, adolescente!
Eu fui uma adolescente que falava que ia fugir de casa, porque eu fui adolescente, cabeça dura, sabe? Bem adolescente mesmo. E, eu fico feliz que eu pude ter isso.
Olhando para trás, eu penso, meu Deus, que vergonha. Mas eu fico feliz que eu pude ter isso, eu pude ser uma adolescente, sabe? É, e querer brigar com meus pais e querer ter problemas de adolescente, e não só o problema de uma menina que tem uma deficiência.
Então, isso foi algo que existiu. Essa Ana Clara, ela existiu. E eu ia para festinha, eu ia, tinha amizade com adolescentes, eu tinha, é, amores e crushes, e que não sei que, e namoradinho e tudo mais, e, e isso tudo aconteceu. Ao mesmo tempo que eu fui me entendendo como uma pessoa com deficiência no mundo.
E foi nessa época, em que as redes sociais começaram a ser algo muito presente da vida de todos nós. E na minha vida.
Então, entrando na adolescência, quando eu fui ter as minhas redes sociais, de que era ali na época, em que a gente tava no Orkut, MSN, e depois pro Facebook, Instagram.
E nessa época, é, algo que já existia muito forte em mim e que começou lá na infância, foi esse, essa necessidade de encontrar outras pessoas como eu. Foi nessa época que isso começou a se tornar um buraco muito grande, no meu peito assim, de ok, eu sou uma adolescente como qualquer outra adolescente. Mas eu também não sou uma adolescente como qualquer outra adolescente.
Ana
E eu não tenho outras pessoas de referência, não tenho outras pessoas como eu que eu possa ver e me inspirar, e, enfim, e aí que entra…
Flávia
Né? Trocar ideias, aprender com a experiência do outro.
Ana
Sim!
Flávia
Fazer parte de um grupo.
Ana
Sim, sim! E foi aí que, entrando nas redes sociais, tudo mudou totalmente, porque, mudou o meu olhar para com o outro e para comigo mesma.
Comecei a fazer essa pesquisa ativa mesmo, de ir atrás de pessoas com deficiência, digitar no Google, pessoas com deficiência, e ir realmente atrás dessas pessoas. Pra poder me sentir um pouco mais pertencente, eu acho, pra poder me inspirar em outras pessoas, isso é importante pra qualquer um né, eu acho que qualquer adolescente passa por isso, de querer pertencer a um grupo.
E eu, eu já pertenci a alguns grupos, mas por mais que eu tivesse muitos amigos e uma família muito acolhedora, e uma escola muito acolhedora, ninguém era como eu. Isso faz diferença! Uma referência faz diferença.
E foi aí que eu conheci muitas pessoas ao redor do mundo.
Foi aí que eu comecei a estudar inglês pra poder entender e conhecer outras pessoas ao redor do mundo. Foi aí que eu encontrei histórias parecidas e histórias muito diferentes da minha. Foi aí que eu fiz algumas amizades.
Foi aí que um dia, eu liguei a televisão e eu vi uma jornalista com deficiência, é, que virou a minha grande referência e que fez total diferença na minha trajetória, que eu não sei se vocês conhecem, mas ela se chama Flávia Cintra.
Ana
E, foi aí que eu pude entender que muita coisa era possível, sabe?
Eu, eu comentei isso da Flávia, mas é, não é, não, não nego. É, é de fato real!
Eu vi a Flávia na televisão, foi através dela que eu pude entender que eu poderia fazer jornalismo. E que eu percebi que era o jornalismo que eu queria fazer. E foi muito importante, porque se eu não tivesse visto a Flávia e outras pessoas com deficiência nessa época, talvez eu não teria feito jornalismo, eu não teria feito faculdade, ou eu não teria escrito um livro, ou enfim, é, aquele famoso efeito borboleta sabe, de que uma coisa leva a outra, que leva a outra, que leva a outra.
Foi nessa época que tudo isso mudou, porque eu acho que, as redes sociais elas podem sim, ser um ambiente muito hostil, muito tóxico, principalmente pra crianças e adolescentes. É muito perigoso, de fato. Mas, ela também proporciona algo que, é difícil a gente ter em alguns lugares, sabe?
Eu cresci no interior do Rio de Janeiro, numa cidade pequena em que eu fui acolhida, mas que, eu não via outras pessoas da rua como eu. E a rede social era minha rua, de alguma forma. Eu via ali outras pessoas e pude entender, enfim, é, esse, esse olhar para outras pessoas.
E foi nessa época que eu fui, comecei a reunir essas histórias, dessas pessoas, como um arquivo pessoal mesmo, uma coisa para mim de ser pessoas que eu conheço, pessoas que, que fazem alguma diferença, ali na minha trajetória, na minha vida apenas por serem outras pessoas com deficiência que estão vivendo as suas vidas, mas que me mostram que algumas coisas são possíveis.
E, nessa época que surgiu, sem eu saber, e sem eu ter a menor ideia, mas foi aí que surgiu o meu livro. Que conta a história de muitas outras pessoas com deficiência. E foi aí que eu comecei a reunir essas histórias. Porque elas de fato mudaram toda a minha, a minha trajetória.
E, foi isso, e aí voltando assim pra, pra sua pergunta, fazendo esse pequeno, grande flashback e voltando pra sua pergunta, foi isso que fez com que eu entendesse que seria possível eu sair daqui, do interior do Rio de Janeiro e ir fazer uma faculdade, e ir fazer jornalismo.
Eu passei na faculdade pra Campinas. E, na época, eu queria me mudar pra São Paulo, eu queria sair daqui do interior, porque os meus pais são de São Paulo. Eu na verdade nasci em São Paulo, mas mudei para cá muito cedo por toda a questão de saúde, enfim, meu pai foi transferido para cá, então, eu, eu falo que eu sou carioca porque, eu vim para cá com três anos de idade, eu nem me lembro da minha vida antes disso, então, pra, pra resumir o discurso, eu sou carioca, mas eu nasci em São Paulo.
Ana
E meus pais são daí, e todo o, o restante da minha família também é de São Paulo.
E, nessa época eu decidi que eu queria sair, eu queria entender o mundo de uma maneira diferente.
Passei na faculdade pra Campinas, mas ainda não sentia que era o momento e eu tinha muito medo, eu não sabia o que seria possível ou não. Não era o momento de eu ir pra essa jornada sozinha.
Então os meus pais, fizeram algo que eu sou eternamente grata, porque eles não, não é que eles não precisariam, mas eles não, não sei se seria a escolha de todos os pais fazer a mesma coisa, que foi largar tudo aqui e vamos para Campinas pra Ana Clara fazer faculdade.
Então fui eu, minha mãe, meu pai e meu cachorrinho, fomos todos para Campinas, moramos lá por quatro anos, que foi o período de eu fazer faculdade, morei com eles. Então, ali começou uma jornada da Ana Clara independente, mas ainda na casa dos pais.
Então, eu fui para a faculdade, na faculdade, foi um ambiente muito, libertador para mim, porque ninguém me conhecia!
E, eu poderia formar uma nova personalidade. Eu poderia testar, eu poderia ser diferente, porque ali, tava muita gente fazendo o mesmo, sabe?
Tinha muita gente de muitos lugares do país, fazendo exatamente a mesma coisa. Então, eu me vi ali naquele primeiro dia de aula, com 1 bilhão de possibilidades, mas, primeiro, eu tinha a consciência de que eu tinha que demonstrar segurança com quem eu era. Naquela época, eu não posso dizer que eu era totalmente segura com quem eu era, mas, eu tinha que fingir pelo menos, que eu era segura com quem eu era pra que as pessoas me vissem dessa forma também. Porque a minha deficiência ela ia ser uma questão de qualquer forma, não ia ter como eu esconder ou disfarçar, não tem como, minha cadeira de rodas é quase maior do que eu. Não tem como disfarçar, e eu sempre tive a consciência disso.
Então, eu queria ao menos mostrar que eu tava, segura com aquilo, e que, é, tá tudo bem, mas essa é coisa menos importante sobre mim.
E aí eu comecei a fingir mesmo que, que tava tudo bem, que eu era uma pessoa segura e que, que não queria que as pessoas olhassem para mim dessa forma. Fui durona ali, fui totalmente, tipo, ah, eu não me importo, mas no fundo eu me importava muito.
Ana
Mas fui assim, também fui entendendo que essa era uma possibilidade, sabe? E as pessoas ali ao meu redor, é, começaram a me ver com esses olhos também, me ver que, é, eu tinha uma deficiência sim, mas, que essa não era a coisa mais importante sobre mim.
E, eu fiz muitos amigos, eu fui uma universitária muito ativa, empenhada, participei de tudo. Eu fui da Atlética da minha faculdade. Eu organizava, eu trabalhava em festas da faculdade.
Flávia
Ai que legal!
Ana
Enfim, fiz parte de tudo, de todas as matérias extracurriculares, fiz estágio numa multinacional, eu dei o meu máximo. Eu queria aproveitar a oportunidade ao máximo, que eu poderia aproveitar. Eu queria aprender, eu queria, enfim, eu tinha 18 anos, eu queria viver, e, eu fui muito privilegiada por poder viver tudo isso.
No meio do caminho, algumas questões aconteceram, e, não posso dizer que eu, sou grata por essas questões, porque eu não penso assim. Mas, foram essas questões que me fizeram começar a trabalhar com a internet, começar a fazer vídeos pra a internet, que foi quando tudo começou na minha primeira semana de aula, eu tive uma, uma situação, muito brevemente contando a história, mas eu tive uma situação em que, uma profissional ali, uma inspetora, enfim, não queria deixar eu circular pela faculdade sozinha. E eu, queria ter a minha independência, tava conquistando, e era uma faculdade razoavelmente acessível, mas eu não sabia o que era acessível e o que não era. E o que era, eu queria fazer sozinha.
E essa pessoa, claro, na maior das boas intenções, não queria deixar eu circular pela faculdade mesmo sozinha. E ela ia atrás de mim, em todo lugar que eu fosse. E nesse dia em específico, eu falava pra ela, falei várias vezes, não, não precisa, tudo bem, eu consigo ir, eu já vi, já fui atrás, eu consigo ir, e, e essa pessoa não deixava.
E eu me lembro que minha mãe foi me buscar na faculdade esse dia, e, eu tava com muita raiva.
Ana
Eu, entrei no carro com muita raiva, cheguei em casa com muita raiva, como uma boa adolescente quase adulta, bati a porta do quarto com tudo, peguei o meu celular, coloquei o celular da posição que eu conseguia ali, de qualquer jeito, sem iluminação, sem microfone, sem nada, de qualquer jeito, porque eu precisava externalizar, eu queria falar, eu queria, eu tava com muita raiva. Eu queria ser vista como qualquer outra pessoa que tava ali vivendo, sabe?
É, eu senti uma sensação de humilhação de alguma forma, porque, essa pessoa ela não me conhecia, ninguém ali na faculdade me conhecia.
E ela começou a perguntar pros outros alunos se tava tudo bem eu ficar sozinha. E isso, foi muito humilhante pra uma menina de 18 anos, porque esses outros alunos, eles não me conheciam também. Eles não sabiam quem eu era, eles responderam para ela tipo, ah, sei lá, ela, a gente não conhece ela e tudo mais, enfim.
E essa situação me marcou muito e ali eu gravei o meu primeiro vídeo, que era te ensinando a ajudar uma pessoa com deficiência. E que era basicamente o vídeo, muito curto falando, como ajudar uma pessoa com deficiência. Se a pessoa fala, preciso de ajuda, você ajuda ela. Se a pessoa fala, não preciso de ajuda, você não ajuda ela.
E era esse o vídeo. (Risos)
E ali começou uma jornada, porque eu pude entender a internet, que foi um ambiente acolhedor para mim, ali na adolescência, como um lugar em que eu poderia ter voz de alguma forma, sabe?
Flávia
E ser vista.
Ana
Eu poderia ser vista, poderia ter voz, eu poderia, é, falar o que as pessoas ao meu redor não queriam ouvir. O que elas não, é, sabiam que precisavam ouvir ou o que, enfim, eu nem conseguia falar talvez, eu não conseguia enfrentar a pessoa e falar. Então, eu usei a internet como uma válvula de escape de alguma forma, e ali eu comecei a produzir conteúdo de fato na internet.
Ana
Na época eu não via como um trabalho, mas eu, via como um hobby, um diário, que eu podia compartilhar e podia mostrar a minha jornada, minha vivência, sendo uma pessoa com deficiência, e me descobrindo e crescendo também.
Arthur
O diário digital tem essa função, né, de descoberta.
Desculpa Flávia.
Ana
Tem!
Flávia
O primeiro de muitos, e muitos, e muitos vídeos, que te levaram a ocupar esse lugar de destaque, que você mantém até hoje, é, e que, aconteceu num processo em paralelo com toda a sua vida acadêmica, você se formou jornalista.
Ana
Sim!
Flávia
Se tornou uma mulher adulta.
Ana
Sim!
Flávia
E como que foi, é, assumir esse lugar de adulta Ana Clara?
Ana
Olha, eu acho que, foi uma experiência de fato. (Risos)
Não posso dizer que, que não foi.
Na faculdade, no meio da faculdade, nós tivemos a pandemia. Então, eu me formei na pandemia. E, na pandemia as coisas ficaram muito diferentes assim, tanto no mundo, claro, mas, pra mim em específico, é, foi, o momento em que eu passei a olhar para as redes sociais, de uma maneira diferente.
Eu já fazia esses vídeos, mas mais pra testar a, a minha experiência como jornalista. Então eu usava e testava, de diferentes formas de apresentar, de entrevistar, enfim, era um ambiente mais de experimental assim pra mim, e, na pandemia, em que eu tava quase me formando ali, eu fiz um vídeo, e esse vídeo viralizou, que era um vídeo sobre nós, pessoas com deficiência, sempre estivemos de quarentena.
Um vídeo que eu fazia um paralelo, contando um pouco sobre que a gente já não ia nos lugares, que a gente já não entrava nos lugares, a gente não era convidado pras festas, a gente já não comprava roupa nas lojas, enfim. É, esse, esse paralelo, em que foi mais uma vez um desabafo, que virou um vídeo.
E, eu estou contando isso pra contar, como foi me tornar uma adulta, porque esse vídeo em específico, é, viralizou e, mudou meu olhar de que a internet talvez fosse um caminho de trabalho. Era um, lugar que eu poderia olhar mais profissionalmente nesse sentido.
Foi na época em que a gente começou a ter muita presença de criadores de conteúdo, influenciadores digitais da internet, e, eu gostava de falar com a câmera. Eu, pessoalmente me achava boa falando com a câmera. Eu tinha muita facilidade em falar, em editar, em fazer roteiro, em criar, enfim, muito criativa. Eu falei, ah, o que que eu posso perder com isso? E comecei a fazer.
E as coisas foram acontecendo muito naturalmente, até que chegou minha primeira proposta de trabalho assim, que eu fiz uma publicidade. Daí eu olhei e falei opa, espera aí, acho que tem alguma coisa acontecendo aqui.
E foi me entendendo nesse universo, ao mesmo tempo em que uma pandemia mundial acontecia, e fui me, me entendendo enquanto mulher, fui me entendendo com a minha sexualidade, que também na faculdade foi o período em que eu mais me entendi com a minha sexualidade. Foi me entendendo enquanto adulta.
Ana
Nessa época meus pais se separaram, então, minha mãe voltou a morar no Rio de Janeiro, e eu fiquei morando com o meu pai por um tempo.
E isso, é importante porque também foi uma época, em que a Ana Clara, adulta, começou a se mostrar um pouco mais. Então, eu já discordava de muitas coisas da minha criação, do mundo ao meu redor, do lugar que eu estava. Eu já, já discordava muito. E eu, fui tendo coragem a manifestar isso de alguma forma.
E quando eu vi que, o meu trabalho na internet poderia ser um trabalho de fato, que eu poderia ganhar dinheiro com isso, e era algo que eu amava fazer, eu pensava muito do tipo, poxa, é algo que eu amo, e é algo que pode ser dinheiro. Então por que que, é, sei lá, acho que 99% das pessoas querem uma oportunidade de fazer algo que elas amem e que dê dinheiro.
Então assim, é porque não. E é algo que foi fluindo naturalmente, eu fui trabalhando, fui juntando meu dinheiro que eu fazia com essas publicidades.
Ao mesmo tempo, eu era estagiária numa empresa, numa multinacional, mas eu percebia ali que, eu não queria trabalhar no mundo empresarial, mas ao mesmo tempo, fui juntando meu dinheiro, trabalhando, pagando conta, aprendendo a pagar a conta, aprendendo a ter uma conta, aprendendo a usar o dinheiro, tendo a minha independência.
E aí, na, ali quando eu terminei a faculdade, eu me vi sem faculdade, sem emprego, porque eu era estagiária.
E, e daí quando acabou a faculdade, acabou o estágio, enfim, eu tive um rompimento na relação com o meu pai também, então, precisei voltar pra casa da minha mãe, aqui no interior do Rio de Janeiro, e, em depressão, em profunda depressão.
Fui diagnosticada com depressão na época, depressão e ansiedade. Parecia que, assim, o meu mundo estava acabando, é ruindo, mas a única coisa que se manteve, que se sustentou de alguma forma, Foi meu trabalho, foi a internet, no caso.
Eu, muitas pessoas falam que eu ajudei muitas pessoas, né. Mas eu, fui muito ajudada na internet. É, por muita gente que, acho que nem sabem disso, mas que me permitiram, a querer continuar viva. E querer continuar falando e aprendendo quem eu era, e que tava tudo bem ser eu mesma, e que aquela, aquele momento não era o fim da minha vida, não era o fim dos tempos, e que coisas difíceis acontecem, mas que, enfim, é, vida adulta, né?
Ana
E, eu tive muito acolhimento da minha mãe, da minha família, e das pessoas na internet pra poder me tornar adulta.
Com isso, eu, quando me recuperei dessa fase, fazendo tratamento psiquiátrico, eu me recuperei, eu decidi que eu queria morar sozinha.
Esse já era, um desejo que tava no meu coração há muito tempo, mas que, eu sempre falava, ah, um dia eu quero. Aquele sonho distante que a gente deixa na cabeça, que a gente tem certeza que vai acontecer, em algum momento, mas a gente não sabe exatamente nem como chegar lá. Então, deixa aqui no fundo da cabeça que um dia ele vai acontecer.
E eu vi que, aquele talvez seria o momento, porque, eu tinha juntado um dinheiro, eu tava com um trabalho na internet, mais firmado, mais seguro. Eu, tava recebendo propostas de eventos, em que eu tinha que estar em São Paulo e eu falei bom, acho que eu quero, eu vou fazer, e foi meio que assim, planejei muito, mas eu tentava não pensar muito emocionalmente, não sei dizer, na parte emocional da coisa, porque eu tava morrendo de medo, e, as pessoas me perguntam como eu tive coragem, eu não faço a menor ideia.
Como é que eu tive coragem, eu só fui. assim com muito planejamento, né, minha mãe me ajudou, minha família ajudou, mas eu fui, e aí começou a minha jornada morando sozinha. É, claro, eu tinha um apoio de cuidadoras, que tavam ali comigo, que me ajudavam.
No começo eu morei com uma amiga, a gente dividia apartamento, então, eu tive a experiência não universitária de dividir apartamento. Eu, depois fui morar sozinha, pude me ver ali como uma adulta funcional e aprender lutar por mim mesma. E esse trabalho, que começou quando eu era muito pequena ainda, teve, resultados no futuro.
E eu passei a entender que eu poderia fazer as coisas sozinha. Muitos perrengues aconteceram porque assim é a vida adulta, mas, eu aprendi a ser adulta, ainda aprendo porque eu tenho 26 anos ainda, mas aprendi a ser adulta. Aprendi, é, tem uma frase que eu gosto muito, de uma pessoa muito importante da minha trajetória, que eu nunca a conheci, mas, que foi uma dessas pessoas que eu encontrei na internet ao longo do caminho, que foi a Judith Hellman. Que é uma, pessoa muito importante da luta pelos direitos das pessoas com deficiência, principalmente nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro.
Ana
E, ela fala uma frase em que eu vou citar livremente, porque eu não lembro exatamente as palavras, mas, em que ela falava que, independência também é, falar pro outro a forma como você quer ser ajudada. Independência não é só você fazer por você mesmo, mas também saber como você quer que faça, e falar pro outro, como você quer ser ajudada.
E, eu levei essa frase como lema, como mantra, por todos os meus minutos morando sozinha, por todos os meus anos, morando sozinha. Porque eu pude entender que, eu não consigo fazer, muita coisa sozinha, não consigo esquentar uma comida, eu não consigo tomar banho sozinha, eu não consigo me ver a noite na cama sozinha.
Mas eu aprendi, e aprendo, eu sei exatamente como eu quero que as pessoas façam isso por mim.
Flávia
Ana Clara, é muito, muito lindo te ouvir falar da Judith, e, porque quem inclusive, quiser saber mais sobre essa história. Ela é protagonista do documentário “Crip Camp”.
E ali surgiu o movimento de vida independente, que, é a escola da onde eu vim. Onde a minha geração de ativistas e militantes se formou. E o conceito de vida independente é exatamente esse, ter independência não é, não significa conseguir fazer fisicamente as coisas sozinho, mas assumir o comando da própria vida, fazer escolhas responsáveis e assumir as consequências dessas escolhas. E foi exatamente isso que você exercitou, né?
Arthur
O Crip Camp foi essa vida em São Paulo, hein Ana? Seu Crip Camp né?
Ana
É, acho que, acho que a gente pode dizer isso sim.
Flávia
Não, o contrário disso! Desculpa. O Crip… o Crip, ela saiu do acampamento e foi pro mundo, né?
Arthur
Há sim, e foi pro mundo, verdade. Mas ela descobriu essa independência e esse…
Flávia
É, é.
Arthur
Esse, lugar né, de entender que, esse lugar de independência, nessa, nessa trajetória, nessa viagem, nessa jornada.
Ana
Foi, com certeza!
Arthur
A gente pode dizer, tanto pra ir como pra voltar, também, né? Pela consciência, né, da dor, do corpo, de tudo que se vive né, nesse processo, de autoconhecer, de se autoconhecer, né?
E de, e de viver, viver é comprimir e expandir, né. É se despertar pra isso, a vida não é linear, e nem é normal né, a vida é, é isso né.
Flávia
E Ana, eu me lembro de receber o e-mail de uma adolescente dizendo que, me lembro muito bem. Dizendo que ela se inspirava em mim, que tinha escolhido o jornalismo e descobriu que isso podia acontecer depois de me ver trabalhando.
E eu me lembro de ter respondido pra você que, eu tinha certeza que da mesma maneira que eu pude ser referência para você em pouco tempo, você seria referência pra muitas outras meninas.
Flávia
E é muito bom saber que eu acertei! Porque hoje você, tá nesse lugar, de ser referência, de inspirar. E se mostrar pra muitas outras pequenas “Ana Claras” que tem por aí. De que sim, é possível.
E eu queria te convidar, o que você tem a dizer para essas pequenininhas hoje?
Ana
Aí, é difícil! (Risos)
Eu, eu fico emocionada.
Flávia
Eu também!
Ana
Pensando nisso, porque, bom, acho que, pra quem não sabe, eu realmente mandei uma mensagem pra Flávia, assim que eu entrei na faculdade de jornalismo, falando que, eu tava na, faculdade de jornalismo por causa dela. Ela não, não me ajudou a passar no vestibular, mas foi por causa dela, que eu tava, na faculdade, que eu entendi que seria possível, vi como uma possibilidade, pra depois querer fazer de fato. E me apaixonar pela profissão e me tornar adulta.
Eu mandei essa mensagem e eu, eu jamais, eu não esperava uma resposta de fato, eu, mandei como uma, uma carta para que, se um dia você precisasse, de algum motivo, ou pra entender alguma coisa, que, talvez seja muito pessoal para você, mas que, talvez a vida seja muito difícil. Mas, a nossa vida né, sendo pessoas com deficiência, talvez seja muito difícil sim! Mas que, a gente ajuda, algumas pessoas ajudam a torná-la um pouquinho mais fácil, um pouquinho menos difícil.
E, que, talvez você nunca me conhecesse, talvez a gente nunca tivesse fazendo esse bate papo, mas, naquele momento isso não importava para mim. Naquele momento eu queria que você soubesse. E você poderia nunca ter me respondido. Eu nunca levaria isso pro coração, porque, não era o meu objetivo. O meu objetivo era que você soubesse que, você fez diferença na minha vida de fato.
Ana
E que talvez alguma outra pessoa lá no início da sua trajetória, não tivesse te inspirado ou pessoas não tivessem te apoiado e você não conquistasse o que você conquistou, talvez eu também não tivesse.
E… eu, eu fico emocionada porquê, eu peço desculpas pela voz embargada, eu tô, eu realmente lutando muito aqui pra não fazer soluçando, mas eu fico emocionada porque, hoje, não só porque você me respondeu de fato, que a gente se conheceu, e que a gente viveu um momento lindo, que eu pude falar isso para você, em que, eu pude contar histórias de outras 26 pessoas com deficiência que fizeram história ao redor do mundo e que você pode escrever no meu livro falando sobre essas histórias, e que a gente se encontrou, e que isso, talvez tenha significado alguma coisa pra outras pessoas.
Talvez a gente nunca saiba. E talvez seja um efeito borboleta infinita em que pequenas coisas acontecem e influenciam outros. E a gente nunca vai saber!
Mas eu fico feliz e pra mim é o suficiente, saber que, eu faço o que eu faço, pra que outras pessoas tenham o que a Ana Clara teve em você.
E, eu não tenho problema nenhum em falar da minha deficiência, ou lutar por mim mesma hoje ou brigar, ou ir na internet e poder, ter o meu espaço, a minha voz, pra que outras pessoas também tenham.
E, eu espero que futuramente os novos jovens, olhe pra gente, pense, nossa, mas isso nem significa tanto, porque vai ser tão comum pra eles que, isso não vai ser uma grande questão, mas pra gente é. E a gente sabe que pra gente é.
Eu acho que, se eu pudesse falar alguma coisa, pra eles, novas, as pequenas, “Ana Claras” e pequenas “Flávias”, eu diria que… eu as abraçaria! E, diria que… tá tudo bem elas serem quem são.
E isso diz respeito a tudo, diz respeito à deficiência, isso diz respeito a sexualidade, diz respeito a qualquer, única característica que elas tenham. Porque, nada disso importa tanto assim. Ou, tudo importa muito.
É, eu acho que, ser quem a gente é, é, a melhor coisa que a gente pode fazer. E, é tão libertador, é tão gostoso poder, é, me sentir, livre, me sentir acolhida e me sentir capaz, e me sentir potente por ser exatamente quem eu sou. E, me descobrindo muito sendo exatamente quem eu sou. E que tá tudo bem, porque, a vida não é só uma trajetória. É tudo muito único, é tudo muito particular. E, eu acho que… Isso é o suficiente.
Flávia
É!
Val
Ana, agora falando do seu livro, eu preciso confessar algo para você Ana Clara. Eu comprei, já faz alguns meses esse livro, acho que uns quatro meses, pra minha sobrinha, só que eu fiquei tão apaixonada Ana, pela leitura, pela ilustração, que eu não dei! Eu tenho ele comigo até agora. Ane, a titia te ama, depois a titia dá outro pra você, tá bom? Mas eu fiquei apaixonada!
E, e eu tô lendo aqui, né, já li inúmeras vezes, mas só pro público conhecer um pouquinho dessa sua obra, que é o “AB, BCD”. Diz assim, de Aron, Benedita, Carol, Davi, até a letra Z! São 26 pessoas de diferentes países, gêneros e profissões reunidas nesse abecedário. Cada uma delas com sonhos, ideias, jeitos, pensamentos, desafios, e deficiências que as tornaram única.
Como surgiu essa ideia desse livro tão maravilhoso Ana Clara?
Ana
Olha, o livro surgiu, de toda a minha vida. É, são essas histórias que eu fui reunindo ao longo da minha trajetória, que eu fui reunindo ao longo da minha história. Pra eu, Ana Clara, me sentir acolhida, me sentir representada, me sentir pertencente a um grupo.
Eu, percebi na fase adulta, ali, saindo da faculdade, que, eu tinha todas essas histórias reunidas, e o meu grande sonho, no fundo, sempre foi ser escritora.
E, eu recebi, na verdade eu fui muito privilegiada de receber um convite, da editora, da Companhia das Letras, do selo infantil da “Companhia das Letrinhas”, pra escrever alguma coisa. E quando, isso aconteceu, primeiro que eu nem imaginava que isso tava acontecendo de fato, quase desmaiei e caí pra trás, e depois, depois que eu me recuperei, me lembro que eu falei pro menino, pro editor, eu sei exatamente o que eu quero fazer. E, ele me procurou mais pra ah, você sabe, tem alguma uma ideia? Eu falei, eu sei exatamente o que eu quero fazer. E foi ali que tudo clicou, que virou a chave e que começou a trajetória, o projeto do livro do “AB, BCD”.
E, que conta a história dessas pessoas que eu reuni ao longo da minha vida, e outras que eu conheci no processo do livro mesmo.
Ana
Enfim, todas contadas não biograficamente, mas, inspiradas na história que elas realmente viveram, né, e foi um processo que eu acho que, no fundo, no fundo, ele foi muito mais para mim. Porque, conforme eu fui me, debruçando nessas histórias e mergulhando nessas histórias, eu fui entendendo a partir do outro, muita coisa sobre mim. E muita coisa que eu aprendi, ser possível.
O livro ele no fundo, foi pra curar, a Ana Clara criança, curar Ana Clara adolescente, e, dar voz, e apoio, e abraço na Ana Clara adulta.
Val
E encantar muitas pessoas!
O Arthur iniciou a fala nesse podcast com a palavra encantamento. E esse livro trouxe para mim, e eu tenho certeza que você está nos ouvindo aí, vai ter esse mesmo sentimento, vai ficar encantado com essa literatura, e encantado com as ilustrações.
Muito obrigada, viu Ana Clara.
Ana
Eu que agradeço. Eu fico muito, muito, muito feliz, e esse livro, é pelas pequenas “Anas” e pequenas “Flávias”.
Arthur
Um convite pros professores também, né Ana?
Ana
Sim, com certeza. É um livro, muito potente pra contar sobre a deficiência, mas sobre histórias de pessoas que fizeram história, ao redor do mundo, algumas adultas, algumas crianças, e que, são plurais e diversas, e que agregam muito na nossa história, e talvez tenham inspirado outras “Anas” e outras “Flávias” por aí, ao redor de si.
Arthur
Com certeza estão viu. Com certeza, tem até histórias da educação infantil aí que seu livro tem preparado as crianças, trabalhado não só o letramento, não só a questão das letras, mas trazendo pras crianças essa questão do anticapacitismo, e trazendo histórias e representatividade, pro cotidiano, pro dia a dia da educação, que é permeado pela singularidade, né? Que é permeado pela diferença. Isso é muito bom.
Ana
Com certeza!
Flávia
Ana Clara Muniz, que bom que a vida colocou a gente frente a frente. Que bom que a gente pode se encontrar. Que bom estar aqui com você hoje. E que coisa mais linda, você tem só 26 anos, a sua vida tá só começando. Você ainda tem muito o que conquistar, o que ensinar, o que inspirar.
E a gente aqui vai continuar te seguindo, te aplaudindo, te admirando, e te apoiando também, se um dia você precisar conta sempre com a gente.
Pra mim é uma alegria fazer parte da sua história, e, eu já profetizei lá atrás, que você ainda, ia inspirar muita gente e está acontecendo. Eu posso garantir hoje que eu sei que ainda vão ter muitas situações, pra que a gente possa se encontrar e todos nós. E eu vou tá te aplaudindo lá na primeira fila, sempre!
Muito obrigada pela sua trajetória, pela sua história, pelo seu trabalho e pelo seu tempo de hoje.
Sucesso, minha querida, um beijo!
Arthur
Obrigado, Ana! Continue usando encantamento pra enfrentar a inevitável tristeza, tá?
Ana
Obrigado!
Arthur
Que é isso que você faz brilhantemente nas redes, ensinando a gente. E trazendo, questões do dia a dia que a gente, precisa ouvir, e de escutar.
Que esse programa possa chegar pra vários lugares.
Muito obrigado!
Val
Um beijo Ana Clara, até breve.
Ana
Obrigada, gente! O podcast vai acabar agora, mas saibam que eu vou estar aqui, chorando da minha casa. (Risos)
Flávia
Beijo, beijo, beijo, obrigada!
Tchau gente, até a próxima, Valeu!
Autodescrição:
Flávia
Eu sou a Flávia Cintra, tenho olhos e cabelos castanhos, cabelos na altura do pescoço. Sou uma mulher branca, uso óculos de armação modelo aviador, e estou usando uma camiseta preta, sentada na minha cadeira de rodas.
Val
Eu sou Val Paviatti, tenho olhos e cabelos castanhos, cabelos encaracolados. Eu uso óculos, hoje estou vestindo uma camiseta preta com um colar colorido.
Arthur
Eu sou Arthur Calasans, sou um homem branco, de nariz e boca grande, tenho cabelo curto, a barba grande, grisalho, a sobrancelha grossa, e estou vestindo uma camiseta verde.
Ana
Eu sou Ana Clara Muniz, eu sou uma mulher branca de 26 anos. Eu, tenho cabelo loiro escuro na altura do ombro, mais ou menos, liso, uso óculos de armação vermelha grande. Tô usando uma blusa regata, vinho, e estou sentada na minha cadeira de rodas que aparece algumas estruturas pretas atrás de mim.
Ficha Técnica:
Tema – “Letras, Infâncias e Vidas” – com Ana Clara Muniz.
Apresentação – Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviatti.
Edição e Masterização – Uirá Vital.
Transcrição – Celso Vital e Silva.
Site e plataformas digitais – Rafael Ferraz e Fabricia Valeck.
A transcrição deste episódio está disponível em nossa página, www.iparadigma.org.br
Além disso, você pode traduzi-lo para Língua Brasileira de Sinais, Libras, utilizando a ferramenta Hand Talk.