Pessoas Incluindo Pessoas

EP 014 – Arte DEF: Cultura, luta e acessibilidade com Giovanni Venturini

No 14º episódio do podcast Pessoas Incluindo Pessoas, Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviati recebem o ator, roteirista e poeta Giovanni Venturini. O bate-papo aborda a Cultura DEF, a representatividade de pessoas com nanismo no audiovisual e a urgência da acessibilidade nos bastidores das produções. A conversa destaca o premiado curta "Big Bang", a desconstrução de estereótipos no humor e o poder do corpo com deficiência como ferramenta de ativismo e arte.

Neste episódio, o ator e poeta Giovanni Venturini compartilha sua trajetória no cinema e no teatro, o impacto da Cultura DEF e a luta por espaços de poder no audiovisual.

O que significa ter um corpo fora dos padrões ocupando as telas de cinema e os palcos de teatro? Para debater o impacto da representatividade, o enfrentamento do capacitismo recreativo e a construção da Cultura DEF, o 14º episódio do podcast Pessoas Incluindo Pessoas recebe o ator, roteirista e educador Giovanni Venturini.

 

Formado pelo Instituto de Cinema, Giovanni ganhou destaque no curta “Big Bang”, do diretor Carlos Segundo, pelo qual recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília. Durante a conversa com os apresentadores Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviati, ele reflete sobre sua infância, a descoberta da sexualidade, as barreiras invisíveis nos bastidores das produções e como a presença de artistas com deficiência transforma a estética e a narrativa cultural.

A Cultura DEF e o ativismo poético

Giovanni explica o conceito de Cultura DEF (de “fora da norma”), um movimento criado por artistas com deficiência que vai muito além da sigla PCD. Ele ressalta que a própria existência de um corpo com deficiência em cena já é um ato político. O movimento busca não apenas garantir o acesso do público, mas também a presença de criadores com deficiência nos bastidores, influenciando a estética, a linguagem e a distribuição de recursos em editais culturais.

Acessibilidade nos bastidores e o rompimento de estereótipos

O ator compartilha as dificuldades enfrentadas na coxia e nos sets de filmagem, onde a acessibilidade raramente é pensada para a equipe técnica ou elenco. Ele também aborda o estigma histórico associado ao nanismo, frequentemente reduzido ao humor violento e ao capacitismo recreativo. Para Giovanni, a verdadeira mudança só ocorrerá quando pessoas com nanismo ocuparem posições de poder, como roteiristas e diretores, reescrevendo suas próprias narrativas.

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O sucesso de "Big Bang" e a descoberta do corpo desejado

O episódio mergulha no impacto do curta “Big Bang”, que abriu portas na carreira de Giovanni e trouxe uma discussão profunda sobre invisibilidade e luta de classes. Ele também fala sobre seus projetos teatrais, como “Anão Ser” e “Corpo Celeste”, e a performance “Eu queria ser invisível por 1 dia”, refletindo sobre o olhar do outro, a autoaceitação e a descoberta do próprio corpo como um corpo desejado e potente.

Destaques do EP 014 – Arte DEF com Giovanni Venturini

  • A Cultura DEF: O que significa produzir arte a partir de um corpo fora da norma e o ativismo poético.
  • Bastidores Inacessíveis: Os desafios de atuar em teatros e sets de filmagem que não preveem profissionais com deficiência.
  • Capacitismo Recreativo: A desconstrução do estigma do nanismo no humor e na mídia.
  • O Olhar do Outro: A performance “Eu queria ser invisível por 1 dia” e a inversão do olhar de julgamento.
  • O Curta “Big Bang”: Como o cinema independente abriu portas e marcou uma mudança de paradigma em sua carreira.
  • Corpo Desejado: A descoberta da sexualidade, a autoaceitação e a importância de se sentir atraente.
  • Educação Inclusiva: O papel fundamental de professores com deficiência e a arte DEF nas escolas.
  • Poesia: A declamação do poema “De fora da norma”, um manifesto sobre a identidade DEF.

Leia a transcrição da conversa

Podcast Pessoas Incluindo Pessoas - Terceira temporada - Episódio #14

Pessoas Incluindo Pessoas

 

 

Flávia Cintra

“Pessoas Incluindo Pessoas”, o podcast do Instituto Paradigma. Num novo episódio, eu sou a Flávia Cintra, estou aqui com os meus colegas Arthur Calazans e Val Paviatti.

Tudo bem Arthur?

 

Arthur Calazans

Tudo ótimo! Tudo bem, Flávia? E aí Val, como é que você está?

 

Val Paviatti

Eu estou super bem! Contente, feliz por mais um episódio junto com os meus amigos Flávia e Arthur.

E hoje, como todos outros episódios, estou muito entusiasmada. Hoje um papo bem bacana, vamos falar sobre cinema, teatro, cultura e representatividade.

Recebemos no “Pessoas Incluindo Pessoas”, o ator e roteirista Giovanni Venturini.

Formado pelo Instituto de Cinema, ganhou destaque no curta “Big Bang”, do diretor Carlo Segundo. Pelo qual recebeu o prêmio de melhor ator no FestiVal de Brasília. Atuou em filmes como “Veneza”, e em séries como “Justiça 2” e “Dias Perfeitos”.  além de trabalhos no teatro, onde apresenta o monólogo “A Não Ser”. Também atua como educador e palestrante. Em sua trajetória, traz assim reflexões sobre corpo, estética e deficiência, que é sua marca crítica sobre o padrão da sociedade.

Seja bem-vindo Giovanni Venturini!

 

Giovanni Venturini

Olá! Muito obrigado, prazer estar aqui.

Sou tudo isso, e só pros ouvintes saberem, sou, um homem com nanismo, de pele clara, cabelo loiro, bigode loiro, olhos azuis, sobrancelha grossa.

 

Giovanni

E, acho que me descrever, tanto pras pessoas cegas me conhecerem quanto pra saberem, o porquê que eu trago essas questões estéticas, e essa luta da pessoa com deficiência dentro da minha arte também.

 

Arthur

Eu queria começar, Giovanni, primeiro pra saber, eu acho que, não tive essa ousadia de nesse texto de apresentação, editar o texto, eu acho que ele não fala nem um pouco das diversas camadas que você possui como ator.

Mas, eu vou começar pela parte do ativismo. A forma como você tá dentro do movimento de arte “DEF”, e como artista, tanto do audiovisual, da poesia, do roteiro, eu vejo a sua, o seu ativismo como um ativismo poético.

Como é que você se vê dentro desse movimento?

 

Giovanni

Há, legal, legal você usar o termo “DEF” também, que é um termo muito recente né, até dentro da nossa luta assim, que vem ganhando uma força muito importante né. E acho que ele inclusive, se expandiu e ganhou mais força por conta da cultura né. Acho que o movimento dos artistas com deficiência, que criaram essa difusão desse termo, da cultura DEF. Porque, é um modo né, de, de fazer arte, é um modo de falar, de se comunicar né, temos linguagem própria. É um modo de caminhar, é um modo de se locomover no espaço, no mundo, é um modo de existir. Então, isso tudo constitui uma cultura né.

E acho que, esse lugar do ativismo, não vou dizer que é recente, mas foi um tempo pra eu, me descobrir nesse lugar e pra assumir esse lugar mesmo né. Acho que tem um, uma coisa muito comum no mundo DEF, no mundo das pessoas com deficiência, que, é como se fosse um armário mesmo né, e às vezes é difícil sair desse armário DEF né? Você se assumir uma pessoa com deficiência, entender a sua existência no mundo, e entender o que você produz enquanto, cultura, enquanto registro, enquanto, uma ancestralidade que foi apagada mesmo né, enquanto, um lugar de marca, de existência de um corpo fora das normas, fora de um, de uma, de normas estéticas né, pré-estabelecidas assim, então, acho que não tem como eu não caminhar com isso.

Acho que durante um tempo até tentei fugir desse lugar, ou negar esse lugar, mas, a minha existência passa pelo meu corpo. Tendo um corpo com deficiência, tudo o que eu faço acho que é ativismo.

 

Giovanni

Independente se eu tô levantando uma bandeira de forma escancarada, falando sobre isso, ou de forma sutil, só a minha atuação, a, a existência do meu corpo num filme, num palco, já é um ativismo né.

 

Val

Você comentou Giovanni, que agora no mercado cultural, sendo muito fortes a questão do movimento DEF.

O que é esse movimento DEF? É de fora da caixa, de fora dos padrões, DEF do que Giovanni?

 

Giovanni

Hum, hum! Legal, legal né, é importante ressaltar isso porque o DEF ele não é só uma abreviatura da palavra deficiente né, não é nesse lugar pejorativo, mas o DEF ele vem de uma gíria, de um maneirismo mesmo. Ele surgiu de um movimento de pessoas com deficiência, de artistas da dança em Natal. Foi como uma brincadeira, uma gíria, mas conceituado realmente em uma tese, ganhando uma força, foi por Carolina Teixeira, conceituou isso academicamente. Então, o termo DEF foi conceituado, teve uma pesquisa e um trabalho.

E depois, o “Cultura DEF” foi um, uma junção né, desse termo DEF com a questão de fazer cultura, que foi criado coletivamente por artistas com deficiência. E aí eu sou incapaz de citar todos eles, mas acho que os principais são, não sei se os principais, mas uma galera muito ativa nesse movimento e nessa difusão, foi Edu O., Estela Laponni, há é, enfim, muita gente, João Paulo Lima, muita gente que difundiu esse lugar, e foi uma união mesmo desses artistas, pra se colocar enquanto modo de fazer arte né. Difundindo também a cultura do acesso, que é um modo de, de colocar acessibilidade integrada também, nos nossos fazeres artístico, como uma forma de linguagem, de criação estética mesmo, e não só como um recurso de acessibilidade.

Então a cultura DEF, acho que envolve muitas coisas, não só a nossa presença enquanto um corpo fazendo arte, mas também discussões sobre acessibilidade nos trabalhos artísticos de uma forma mais contundente, mais criativa, mais integrada com a dramaturgia né.

 

 

Giovanni

Então, acho que é uma, é uma discussão e um movimento que vem ganhando força nos últimos anos, inclusive dentro de movimentos culturais importantes, por exemplo, a Funarte já difundiu esse termo né, em documentos oficiais do próprio Ministério da Cultura. Então, é um termo realmente que veio de nós pra nós. E vem ganhando força através de nós assim.

 

Flávia

É um movimento artístico e também político, e que transversaliza outras pautas artísticas. E o resultado disso, eu vejo né, que já é a exigência, por exemplo, de critérios de acessibilidade em editais.

Esse é um dos objetivos? Alcançar as pautas políticas, inclusive os orçamentos políticos, pra que a nossa presença esteja mais garantida. É isso?

 

Giovanni

Com certeza, com certeza! Que a nossa presença esteja mais garantida, não só enquanto público, mas também como fazedores dessa arte né, então, muitos editais, hoje em dia além de exigirem recursos mínimos e obrigatórios de acessibilidade para atingir o público, também, é, existem cotas, e uma difusão, uma descentralização desse, fazer artístico distribuindo melhor para outros artistas né, com deficiência produzirem seus trabalhos. Então, acho que é muito importante essa discussão da cota né, porque acho que dentro de vários movimentos a cota já existe há muito tempo.

É, eu costumo dizer que dentro das lutas é, entre aspas, minoritárias ou dos corpos, entre aspas, dissidentes, é, tem, acho que a nossa luta da pessoa com deficiência, ela tem um, um atraso ainda, ainda é um movimento que está muito pra trás das discussões políticas, de outras lutas né. Então acho que essas leis e essas obrigatoriedades dentro de editais garantem a nossa presença e garante uma visibilidade pra esses temas serem discutidos e trabalhados de uma forma mais digna né, não com um olhar de cima, não com um olhar superior, de um corpo normativo que acha que pode falar sobre nós e sabe tudo sobre nós.

Então a nossa participação enquanto, não só como público, mas enquanto fazedores de cultura, também traz essas discussões e esse fazer né, desse corpo pra trazer vivências reais, experiências reais a partir de nós né.

 

Giovanni

Então, é muito importante garantir essa presença através de editais e essa difusão de dinheiro também né, acho que tem muito sobre “Black Money”, sobre o Pink Money. Mas acho que existe um “DEF Money” também, fazer esse dinheiro girar entre os DEF também, né? Onde tá esse dinheiro que nos foi negado enquanto trabalhadores, enquanto artistas, enquanto produtores culturais.

 

Flávia

Nossa, o que você fala se reflete muito no que a gente vê na prática, nos espaços de arte, nos cinemas, nos teatros. A gente já vê uma preocupação da acessibilidade pro público.

Até porque, é uma imagem mais escancarada, todo mundo vê né, a falta de acesso, mas quando você vai pro bastidor, quando você vai pra cochia, quando você vai pra produtora, quando você vai pra onde se produz a arte, a gente ainda convive com barreiras que estão normalizadas e parece que, enfim, tudo bem não ter acessibilidade nesse bastidor.

Você deve viver isso, de um jeito muito mais duro do que eu no seu dia a dia. Como que é pra você conviver com essas barreiras diariamente Giovanni?

 

Giovanni

É, eu acho que tem muito desse lugar né, de não ter ainda o acesso pensado nos bastidores, seja no camarim de teatro né, um banheiro efetivo dentro do camarim, ou até uma rampa pra acesso a palco né.

Eu tenho um espetáculo junto com a minha companheira, e a gente faz questão de apresentar em lugares em que o palco tenha acesso pra todos os públicos, porque, não é só pra mim, não é porque eu não consigo subir um degrau, mas é porque o público ele faz, se faz presente junto com a gente em cima do palco. Então é essencial que a gente coloque o público e que tenha essa liberdade do público querer subir ou não. E que tenha esse acesso pra estar com a gente ali em cena.

Então a gente, encontrou várias dificuldades assim, de, de achar teatros que pensam, e que tenham rampas. Ou quando tem, você tem que dar uma volta por fora, tem que sair em uma porta, e ir lá por trás, carga e descarga de cenário, que é onde tem rampa.

 

Giovanni

É sempre um processo muito longo e que não prevê que existe um corpo que pode afetar aquele lugar, que pode apresentar naquele lugar. E acho que no cinema, ainda mais no cinema, acho que é um lugar ainda das artes, que é muito, muito elitizado e que pertenceu muito tempo a corpos muito normativos, né. Então, um set de filmagem, uma locação de filmagem, quase nunca está preocupada se vai ter degrau, se vai ter elevador, se vai ter rampa, porque eles não preveem que vai ter alguém na equipe, seja, na frente das câmeras ou atrás das câmeras, alguém na equipe que vai ter, que vai precisar de algum tipo de acesso. Então, acho que dentro dos bastidores do cinema ainda é um lugar ainda mais difícil e que com a minha participação, assim, em alguns produtos, eu tenho tentado trazer essa discussão e esse olhar crítico né, pra esses lugares, assim.

E não que eu seja, um chato e, tipo, há, não vou fazer porque não tem rampa, mas é de fazer pensar e de discutir mesmo, é de colocar que seja um, uma “três tabelas”, uma “três T”, que é aquela caixa de madeira que se usa muito no cinema, pra que eu alcance a pia do banheiro, ou para que eu alcance o catering, onde tem a comida pra almoçar junto com o pessoal, pra que eu consiga ter a liberdade de escolher o que eu quero comer. E que eu não precise pedir pra alguém colocar pra mim, ou que, que tenha um banheiro acessível onde a pia é mais baixa, e não tiver a três tabelas, né. Então acho que tem algumas discussões e que percebo que esses olhares têm começado a se atentar.

As últimas grandes produções que eu fiz, assim, mas é isso também, né, grandes produções que têm dinheiro e que estão atentas a isso. Me perguntaram sobre tipos de acessibilidade que eu precisaria, coisa que eu não via até uns cinco, seis anos atrás, eu não via essa preocupação, simplesmente, me colocavam lá e se vira. Ou no dia a dia eu tinha que pedir para alguém me ajudar ou pedir que colocassem uma três tabela. Hoje, antes de eu chegar, já perguntam se precisa de algum tipo de acessibilidade, né. Eu acho que está começando a abrir estes olhos e essa escuta né.

 

Flávia

Acho que a gente tá finalmente rompendo esse ciclo da invisibilidade, que foi historicamente alimentado justamente pela falta de acesso. A falta de acesso nos impedia de alcançar, de permanecer. Como a gente não chegava lá, a gente não era visto. Sem sermos vistos, não éramos lembrados, não éramos considerados. E, portanto, nossas necessidades nunca foram priorizadas.

 

Flávia

E, finalmente a gente vê esse ciclo se romper, com a visibilidade de trabalhos profissionais.

E aí eu queria te perguntar como que foi o seu processo de profissionalização e se foi difícil ter esse reconhecimento de profissional, porque a gente vivia numa cultura ainda profundamente capacitista, e no mundo das artes, a gente se depara também com barreiras importantes, envolvendo pessoas com nanismo, que sempre foram relacionadas de um jeito até violento, em narrativas de humor. E aí o, a violência não tá no humor, mas na maneira que historicamente ele foi feito.

Queria te ouvir sobre isso?

 

Arthur

Posso aproveitar a tua pergunta e complementar com outra?

Como é que nasce, a partir do que a Flávia te perguntou, o “Quero ser invisível por um dia”?

 

Flávia

Você pode falar depois sobre o

“Quero ser invisível”, é muita coisa.

(Risos)

 

Giovanni

Tá, massa! É bastante coisa assim, acho que tem um lugar que eu acredito, isso é uma pessoa, uma opinião muito pessoal assim né. Que eu acho que dentro, dos tipos de deficiência, a pessoa com nanismo, ainda não é muito vista como uma pessoa com deficiência. Ainda é um tipo de deficiência que é muito ligado ao humor, muito ligado a permissividade. Eu acho que é um corpo que ainda é muito permitido, é permitido ser apontado, comentar, rir. É permitido estar na TV, ou ser violentado, seja sendo arremessado, como foram muitas vezes em algumas culturas, em alguns programas de humor.

 

Giovanni

Ou até mesmo com violências, é, mais, menos físicas, mas mais, que talvez até fira mais né, com piadas e um humor que agride muito a integridade de uma pessoa, né?

Acho que é exatamente isso que a Flávia falou assim, eu não sou contra o humor, eu amo o humor. Eu comecei no humor, e acho que é um lugar muito a ser explorado e que traz muita discussão política. Só que ainda é feito em um lugar muito violento, com corpos não normativos, né.

E aí acho que tem esse agravante que eu digo do corpo com nanismo, que historicamente sempre foi muito atrelado ao humor, à comédia né, isso, desde sempre assim, desde o Egito antigo, desde a Idade Média, desde os crick shows, dos circos, dos programas de humor, do cinema, então é uma tradição, negativamente falando, é um lugar que é muito difícil de romper ainda essa visão né, porque, o que o público vê, ele se acha na permissividade de fazer no dia a dia também. Então, muitas vezes existem piadas, apelidos e até violências físicas né, que aconteciam com pessoas com nanismo, porque tavam reproduzindo aquilo que era visto na TV ou no cinema, né.

Então, acho que tem um lugar que essa permissividade, que muitas vezes outros corpos com deficiência não tem. Quando você ri de uma pessoa em cadeira de rodas, a pessoa que tá do seu lado fala hei, não pode rir, como assim cara? Que você tá fazendo? Agora quando você ri de uma pessoa com nanismo, a pessoa que tá do seu lado ri também. Ri junto! Ela entra na piada, ela vai aproveitar desse lugar, né. Então acho que tem um lugar de romper mesmo, esses estereótipos, esses clichês, esses lugares.

E eu acho que isso só vai ser rompido quando pessoas com nanismo ocuparem posições de poder nos bastidores também. Numa sala de roteiro, numa direção, numa produção. Porque aí o modo como vai ser retratado isso na tela ou no palco de uma peça de teatro, muda completamente. Ou, se não chega até ali essas posições de poder, que ainda é muito difícil, e ainda tão nas mãos de poucos né, que se tenha uma escuta aberta e sincera assim.

Eu encontrei algumas pessoas dentro do cinema que tinham vontade de fazer junto, de ouvir realmente, e saber se tava certo, se tava errado, de mudar o que tava errado, de pedir desculpas, de refazer junto comigo enquanto ator, né? Então tipo, pô, eu não sei o que é viver isso no seu corpo, então você topa rever esse roteiro comigo, ver se faz sentido, muda o que tiver que mudar, eu tô, eu tô a fim de contar essa história a partir de você também, né.

 

Giovanni

Então, acho que esses lugares, esse lugar da empatia, da escuta, sincera, honesta e realmente querer mostrar a humanidade que existe num corpo com nanismo, assim como outros corpos, acho que é mais rico do que continuar reproduzindo esses estereótipos e esses, essas violências que o humor causou durante tanto tempo no corpo com nanismo né?

E aí acho que o “Eu queria ser invisível por um dia”, engraçado você me perguntar isso sobre o “Eu queria ser invisível por um dia”, porque, eu falei sobre ele hoje mesmo assim, tava conversando, foi uma performance que eu fiz e que, não levei muito adiante, mas ela tem rondado minha cabeça novamente assim, tem voltado assim, na minha mente, e, talvez de transformar isso em cinema, de talvez transformar isso em um filme, ou um documentário, ou algo do tipo assim. Ainda tô, matutando essa ideia, mas o “Eu queria ser invisível por um dia” é justamente essa discussão assim, de um corpo que sempre foi apontado, sempre foi olhado, e sempre recebeu risadas, e comentários e piadas. E, na performance eu invertia um pouco esse olhar. Eu colocava o público pra se olhar e pra ser olhado por mim.

Então era um tempo, bem dilatado onde eu ficava observando o público enquanto eu comia pipoca. Inclusive o outro nome era “Eu queria ser invisível por um dia ou, não alimente os animais”. E aí tinha uma sonorização meio de zoológico, meio de safári assim. Uma coisa meio natureza com animais, enquanto eu ficava observando as pessoas e comendo pipoca. E aí essa fúria em comer pipoca vai aumentando, onde eu vou me lambuzando todo com essa pipoca, a pipoca vai caindo no chão também e onde eu inverto esse olhar da câmera né. Então, aponto a câmera pras pessoas, fotografo sem permissão as pessoas com flash disparando na cara delas. Era uma performance, bem agressiva até, assim, de inverter este olhar, sabe?

Então era, era esse lugar, me colocar no outro lugar, e colocar o outro no meu lugar, de ser sempre olhado, apontado e sempre sem a permissão.

 

Flávia

Sabe que essa pauta do olhar do outro, é frequente nas nossas conversas aqui, no nosso podcast, quase todos os convidados nos trazem esse incômodo com o olhar do outro. E a gente está sempre, trazendo esse incômodo e tentando traduzir o significado desse olhar e como que a gente né, como nós, pessoas com deficiência, recebemos.

 

 

Flávia

Eu me lembro quando eu tive meu acidente, foi quando eu tinha 18 anos, que foi a coisa mais difícil, é, enfrentar esse olhar. E no meu caso, Era um olhar de pena, de muita pena, ou então um olhar que simplesmente me atravessava como se eu fosse de vidro. As pessoas evitavam olhar para mim, talvez, parecia que era um receio de que me olhar fosse me ofender. Era uma sensação muito, muito clara de hierarquia de corpos. De uma hora pra outra eu atravessei essa fronteira normativa, me vi do lado de cá! E a coisa mais difícil pra mim naquele momento era enfrentar esse olhar das pessoas. Pra mim foi uma ruptura, foi uma virada, né.

No seu caso, que nasceu já com esse corpo, nessa condição, você a vida inteira teve que lidar, desde muito pequeno, você aprendeu a identificar esse olhar. E como que é ser uma criança, atravessar a adolescência, se, se tornar um homem adulto convivendo com esse olhar que mudou, mas, ainda fere. E ainda, nos tenta hierarquizar né, de um jeito inferior.

Queria ouvir um pouco dessa sua experiência, porque é uma experiência muito diferente né, essa que atravessa a infância até chegar na vida adulta. O olhar mudou pouco, eu imagino, que o sentimento e a maneira de lidar com ele, é que tem amadurecido e se transformado. É assim?

 

Giovanni

É, eu acho que sim, acho que sim, de algum modo sim. Acho que durante a minha infância, é engraçado né, porque eu sou filho único e eu, e não tem ninguém na minha família com nanismo, somente eu. Os meus pais sempre lhe deram, lidaram de uma forma muito, muito tranquila viu. Falava, olha, você é diferente, você não vai crescer e você vai ser assim. Você tem que aprender a lidar com isso. Em um mundo que não é feito pro seu tamanho. Sempre foi um papo muito reto, tanto que me perguntam quando que eu descobri que eu era diferente, e eu falo, eu não sei!

Eu acho que eu sempre soube assim, porque na minha família sempre foi falado abertamente e eu lidava com isso de uma forma muito natural. E os meus amigos, as pessoas que estavam a minha volta, de algum modo, também não sei se por influência dos meus pais, ou por influência de eu me posicionar desse modo, do tipo sou diferente sim, mas estou aqui, vamos brincar, vamos fazer isso.

Então, acho que a minha infância ela foi muito tranquila. Mas é claro que tem as coisas que a gente percebe. Você ser café com leite em alguma brincadeira, você nunca, é, ser o primeiro a ser escolhido no time de futebol. Tem umas coisas que te atravessam que vai, vai te marcando, você fala, há, é porque eu sou diferente.

 

Giovanni

É porque eu sou um corpo com deficiência. Porque eu sempre vou ser visto como coitadinho. Ou, isso, café com leite ou agregado, né. Ou, vamos dar uma chance para ele. Então, acho que vai te atravessando, mas acho que eu lidava de uma forma muito tranquila na infância, e nunca deixei de fazer as coisas que eu queria fazer e brincar do que eu queria brincar.

Na adolescência, adolescente eu acho que é uma fase que é muito difícil pra qualquer ser humano, né, é muita coisa acontecendo ali dentro, é muitas descobertas, muita coisa nova e acho que tem uma, um entendimento de corpo, né, uma descoberta do seu próprio corpo, e um entendimento de corpo enquanto ser atraente, enquanto ser desejado.

E aí, quando você é um corpo diferente, você não é desejado né, porque, os adolescentes estão interessados nos corpos padrões, no modo, em reproduzir os mesmos gostos estéticos, as mesmas estéticas, inclusive de pintar cabelo, de cortar, de usar as mesmas roupas, então, tem, você ser diferente, seja em corpo ou o que você usa, ou o cabelo que você corta, já é muito difícil assim, então acho que ali eu comecei a ter mais questões assim, sobre ver meus amigos namorando e eu não namorando. Ou, as pessoas que ficavam comigo, era meio escondida, não era algo meio assumido. Então, acho que na adolescência teve essa dificuldade de, de desejar ter outro corpo, talvez assim, até eu, queria ser diferente. Ou, não queria ser diferente né, eu queria ser igual a eles.

E aí, acho que teve uma dificuldade um pouco maior. Mas aí no início da fase adulta, me veio um outro lugar que foi, a descoberta desse corpo enquanto um corpo atraente, ou a descoberta dessa sexualidade desse corpo, a descoberta de ser um corpo diferente, mas que deseja, e que também pode ser desejado sabe, por outros corpos. E por outros tantos corpos, seja de pessoas com deficiência ou pessoa sem deficiência.

A minha companheira não tem deficiência. E muitas das pessoas que eu me relacionei não eram pessoas com deficiência. Algumas também já foram pessoas com deficiência, então, entender esse lugar de que é só um corpo e que por trás disso, tem uma humanidade, e você gostar dessa humanidade, seja da sua, ou da pessoa que você se interessa, é, te faz, se aceitar muito melhor, então acho que tudo isso veio muito acompanhado quando eu, comecei a trazer essas discussões pro teatro.

 

 

Giovanni

Quando eu comecei a trazer essas discussões pras peças que eu escrevia, pras peças que eu atuava, eu acho que foi um modo de, me aceitar melhor e de aceitar essa, esse corpo é sendo um corpo sexual mesmo, um corpo atraente, um corpo que, que é bonito do seu jeito, que não tá reproduzindo uma estética, mas ele é bonito e ele, e vão ter pessoas que vão achar ele bonito, e, então, acho que isso me ajudou muito a me aceitar e quebrar aquela lógica adolescente que eu tinha de pô, quero ser igual ele. Não, eu tô feliz demais de ser diferente!

 

Flávia

É mais do que aceitar né, é gostar desse corpo, gostar de ser assim.

 

Giovanni

Exato!

 

Arthur

O Giovanni, vamos falar um pouco de cinema?

 

Giovanni

Bora!

 

Arthur

Eu amei “Big Bang”, cara! Amei “Big Bang”!

 

Flávia

Sim!

 

Arthur

O Chico tá onde aí? Nas grandes camadas que moram dentro de você hoje? Onde tá o Chico aí?

Flávia

Há, primeiro explica quem é o Chico.

 

Arthur

O Chico é o personagem, onde Giovanni ganhou o prêmio de melhor ator do FestiVal de Brasília. É, é um personagem cheio de camadas, acho que tudo que a gente conversou até agora tá no filme. Em termos de representatividade, invisibilidade, o olhar do outro. E cadê o Chico aí? Nessas camadas que residem dentro de você.

 

Flávia

Boa!

 

Giovanni

É, o Chico, o Chico é um personagem muito importante pra mim assim, foi realmente, é, é meio clichê falar isso, mas foi uma mudança de paradigma dentro da arte assim, mas dentro principalmente do cinema.

O Chico ele foi um personagem que, é um curta-metragem de 15 minutos, e que diz muita coisa, tem muito mais do que muitos outros personagens que eu fiz em outros trabalhos, mais longos até, né. Mas é, brincando com essa coisa do curta metragem, né, mas o, é um curta muito sensível e muito poético assim, que o Carlos Segundo que é um cara incrível, um diretor maravilhoso!

E que quando ele chegou em mim me convidando, ele foi essa pessoa com essa escuta aberta, ele falou olha, lê aí, vê o que você acha, o que faz sentido, vê se tem algo que incomoda, se eu falei alguma bobagem, tô disposto a te ouvir. E ele falou vamos mudar junto, vamos contar essa história junto e tudo mais.

E quando eu li o roteiro me impactou na hora assim, é, porque, ele estava muito bonito e ele trazia muita coisa que eu queria dizer. Que eu sempre pensei em dizer como o cinema assim. E é um filme bastante, de olhar, de atravessamento também desses olhares, mas também de um silêncio assim né, é um personagem bem-marcado pelo silêncio dele, assim. E traz a vivência de um cara que é um operário né, um cara que trabalha consertando fornos, fogões, e é um filme que não fala sobre nanismo, mas também fala sobre nanismo. É um filme que fala sobre luta de classes.

 

Giovanni

É um filme que fala sobre outros corpos invisibilizados, né. E isso me, me trouxe muita felicidade, de estar sendo chamado ali, mas que poderia ser outro, outro ator fazendo esse personagem. Mas a minha presença enquanto um corpo com nanismo, traz uma camada mais profunda pro filme. Traz uma fotografia diferenciada, uma fotografia na altura dele, traz uma discussão muito maior, de ele caber dentro dos fornos, traz uma discussão muito maior, pra uma discussão que não é sobre o nanismo, mas sim sobre esses corpos que são invisibilizados, sobre essa luta de classe, sobre esse olhar de cima que atravessa essas classes menores, né.

E foi um filme muito importante porque, me trouxe realmente pra um outro lugar dentro do cinema, assim, muitas pessoas assistiram este filme falam, o, te chamei pro meu trabalho porque eu vi “Big Bang”! Te chamei pra fazer minha série porque eu vi “Big Bang”. Te chamei para fazer meu filme porque eu vi “Big Bang”.

E foi um filme que me projetou mesmo assim, a gente ganhou, a gente estreou ganhando o prêmio de “Locarno”, um dos principais prêmios do cinema mundial, então, acho que trouxe uma representatividade muito boa assim, ter um protagonista com deficiência, em um filme, ganhando um prêmio no cinema, num festiVal de cinema tão importante, aí dentro do Brasil também ganhando como melhor ator, no festiVal mais importante do país também.

É, acho que foi dando uma repercussão e uma visibilidade para mim, que me abriram outras portas. E o mais legal, eu sempre conto isso, assim, é, quando o Carlos me chamou foi no meio da pandemia e tinha pouco dinheiro assim, pouca verba. Eu ganhei R$500 para fazer o filme. Mas quando eu li, o roteiro, eu falei eu quero fazer, não importa qual Valor, eu quero fazer, porque essa história me marca assim, e me marcou muito quando eu li a primeira vez. E, não foram só R$500, porque a quantidade de coisas que me abriu e que me proporcionou depois disso, é, foram inúmeras assim né, de trabalho, de visibilidade, de prêmios, e tudo mais, então, o filme é muito importante. O Chico ocupa um lugar muito especial, inclusive eu tenho uma tatuagem de um forno aqui, no meio do peito, que eu fiz em homenagem ao filme porque, era um momento que eu tava assim, muito desanimado com a profissão também, tava pensando em desistir, tava pensando em parar. Então, esse símbolo, esse simbolismo do forno, de manter essa chama acesa também né, de, de bota lenha aí e continua com essa chama acesa, e não desiste não. Acho que foi um modo de registrar na pele também, fazer essa tatuagem pra me manter vivo, assim na, na, no cinema.

 

Val

Giovanni, eu tenho aqui em minhas mãos uma lista, assim, de vários trabalhos que você realizou, muitos!

Mas eu quero citar dois aqui, o “A não ser”, ele foi um livro que você transformou numa peça de teatro, correto? Onde ali o seu olhar, é um olhar mais educativo, né, educar as pessoas sobre a pessoa com nanismo. Depois veio o “Corpo celeste”, onde você já falou também um pouquinho, fala sobre o corpo, sobre a sexualidade. E, minutos atrás você falou sobre o desejo de fazer um documentário do “Eu queria ser invisível por um dia”.

Qual seria o foco? Como que, qual seria o seu olhar sobre esse novo ocumentário?

 

Giovanni

(Risos) Olha eu tô dando essa notícia em primeira mão, eu ainda não sei muita coisa. E só me passou pela cabeça hoje isso, de transformar a performance do, do “Eu queria ser invisível” em um documentário.

Não sei ainda exatamente para onde eu iria, mas acho que eu iria justamente sobre esses corpos que são muitas vezes invisibilizados em alguns aspectos, né, em algumas questões, até legislativas ou de representatividade e visibilidade, mas que outras vezes não consegue ser invisível e passar despercebido a esses olhares de riso, esses apontamentos, esses olhares que atravessam a gente no dia a dia, né? Eu acho que é um, uma brincadeira justamente com essa palavra do invisível, que é muitas vezes a gente é invisível, mas muitas vezes a gente não consegue ser invisível e esses olhares nos atravessam e nos marcam, né.

Então, acho que seria um resgate, histórico mesmo assim né, conceitual, desses corpos com deficiência ao longo da história da humanidade, né. Passando, por isso que eu já falei do Egito Antigo, da Idade Média, da Segunda Guerra Mundial, é, de todos esses lugares e esses mutilamentos com esses corpos nossos, esse apagamento histórico, essa ancestralidade que foi apagada mesmo. E muito atrelado, claro, ao corpo com nanismo, por eu ser um corpo com nanismo e ter um diretor com nanismo né, acho que eu traria um foco talvez um pouco maior para esse lugar, dessa, visibilidade dentro da mídia, que muitas vezes a gente vê muitos corpos com nanismo ocupando esses lugares, mas de uma forma muito errada e muito equivocada, né. Então, seria mais ou menos por aí, assim.

 

 

 

Val

Posso imaginar que você iria caminhar, ia nos educar sobre o capacitismo recreativo, uma coisa assim?

 

Giovanni

Exato! Acho que também, acho que também passaria por esse lugar assim. Acho que o capacitismo recreativo ainda é um lugar muito, pouco falado, e muito comum de a gente vê, principalmente nas grandes mídias né, assim e principalmente no humor, né?

Como a Flávia disse anteriormente, acho que o humor ainda é um lugar, e é um lugar que me interessa muito investigar. Eu gosto do riso, eu gosto de causar o riso da pessoa depois se constranger por ter rido daquilo. Falar, opa, não era pra eu ter rido disso, acho que no “A não ser” eu faço isso, no “Corpo celeste” eu faço isso. Aí o “Eu queria ser invisível” acho que também traria alguma coisa nesse sentido.

 

Val

Bacana!

 

Arthur

Eu ia falar do “Corpo celeste”, já que você citou “Corpo celeste”, pelo outro e pelo corpo né. Como é que é ter o corpo desejado?

 

Giovanni

(Risos)

 

Flávia

Eicha!

 

Giovanni

Muito bom, muito bom! Pelo corpo e pelo outro, é um, é um trecho do espetáculo que eu fico repetindo isso e as palavras vão se misturando.

 

Giovanni

E, acho que o principal é, de ter um corpo desejado, acho que pra chegar nesse lugar, é primeiro a gente desejar o nosso corpo, né. Acho que passa muito por esse lugar, assim quando, quando eu, percebi o meu corpo enquanto um corpo que é bonito, e um corpo que eu desejava, que eu estava ali feliz com ele, acho que isso muda o olhar externo também, né. Quando a gente começa a olhar para esse corpo de um modo, bonito, de um modo, desejado, de um modo presente, de fato, né? Porque muitas vezes a gente esquece da presença de um corpo numa sociedade.

Então, acho que quando a gente se reconhece enquanto um corpo presente mesmo, e que e presente nos dois sentidos da palavra, né, de que faz presença, de que é um presente que recebemos mesmo, esse corpo é nosso, né. Então, acho que esse presente do nosso corpo, quando a gente enxerga esse lugar, quando a gente percebe esse lugar, o olhar externo também muda. E aí a gente começa a ser desejado também pelo outro. Mas acho que pra de ser desejado pelo outro, a gente tem que se desejar primeiro.

 

Flávia

É, e você tem, uma delicadeza, e um, um cuidado mesmo pra transferir todos esses pensamentos pro seu trabalho de um jeito que eu, como Arthur trouxe né, muito poético. E, discutir esse padrão estético. E aí é que a gente vê o quanto faz falta nossa presença na produção. Em todo o processo produtivo, do cinema, do teatro. É, de todas as artes.

É, a gente teve há um tempo atrás com Daniel Gonçalves, o cineasta, e ele estava contando pra gente, que até o jeito dele segurar a câmera, que às vezes desfoca, que às vezes treme, é, contribui pra a construção estética de como fazer cinema. Não é só o nosso, a nossa participação diante das câmeras, mas em todas as fases de produção, porque isso amplia as possibilidades de criação e de construção de novos formatos possíveis, a partir da nossa experiência. Eu me lembro, eu sou jornalista né, e como repórter, lá nos anos 90, eu já fiz experiências colocando a câmera no meu colo pra fazer um travelling ali, improvisado.

Essa convivência entre pessoas diferentes, que proporciona possibilidades que não vão acontecer nunca, se a gente trabalhar só com esse, olhar reducionista, de pessoas tão iguaizinhas, tão parecidas. Então faz muita falta termos, mais “Giovannis” né, mais “Daniéis”. Mais pessoas, é, produzindo arte, fazendo arte em todas as fases.

 

Flávia

Você vive isso no seu dia a dia? Você percebe que essa, essa lacuna está sendo aos poucos preenchida? E o que você acha que falta acontecer pra que a gente avance mais rápido?

 

Giovanni

Acho que eu percebo, sim. Eu percebo depois de que eu, conheci mais pessoas com deficiência, de que eu conheci mais artistas com deficiência, e que eu comecei a consumir mais isso, também.

E aí, acho que, essa é uma grande diferença, quando a gente consome a arte DEF, a gente vai se alimentando e entendendo, que a gente não precisa se enquadrar no fazer artístico, mas que a gente pode justamente, criar essa linguagem, criar essas estéticas, né. Essa estética poética né, a Gislana Vale também que é uma pessoa que estuda audiodescrição dentro das dramaturgias e nos roteiros, a Gislana ela fala sobre a estética poética, né, dentro de uma audiodescrição, uma estética, que faz parte daquilo, desse corpo que existe, seja num balançar da câmera, seja numa altura da câmera a partir do meu olhar, seja é, numa captação de som de uma pessoa com deficiência auditiva, seja mil possibilidades que existem de fazer artístico através de um corpo com deficiência. Acho que estamos ocupando um pouco esses lugares, acho que ainda é muito lento esse lugar. Não sei como acelerar. Acho que um dos grandes motivadores, acelerarem esse processo e darem oportunidade pra nós, realmente é quando dói no bolso, e quando os editais passam a exigir quando as produções passam a exigir a nossa presença. Infelizmente, as coisas só mudam quando mexem no bolso das pessoas, então, enquanto não for algo exigido, algo que, que precise, que afete realmente o orçamento das produções, acho que as coisas vão continuar sendo tapadas com peneira né, tapar o sol com a peneira. Há, colocamos aqui, uma pessoa com deficiência, mas às vezes é isso, colocam qualquer pessoa com deficiência onde, também, é, só pra cumprir uma cota, ou só pra cumprir um, um, tapar um buraco, e essa pessoa também, é, não teve a a vivência, a possibilidade, o letramento anticapacitista, o convívio com outros artistas, e ela vai continuar reproduzindo o que eles querem, vai continuar reproduzindo o padrão estético já estabelecido. Então, acho que a gente, enquanto estudiosos, as pessoas que continuam trabalhando né, nessa linha cultural, acho que a gente tem criado, não gosto muito dessa palavra, mas vou usar ela aqui. A gente tem criado um legado e uma continuidade de pesquisa, que vai trazendo, realmente discussões pra outros corpos que estão surgindo, e que tão ocupando o mercado agora.

 

Giovanni

E aí a gente vai criando uma estética realmente né. Porque não é uma estética só, porque existem muitos tipos de deficiência, por que existem muitos corpos com deficiência, deficiências diversas, então…

 

Flávia

É cultura! Mudança de cultura.

 

Giovanni

Exatamente! A nossa cultura, ela é muito ampla, ela é muito diversa por si só né, porque existem presença de corpos muito diversos. Então, existem muitos modos de fazer, e que são modos que não são esses que estão sendo feitos até hoje, que são dos corpos sem deficiência, os corpos normativos, dos corpos “sis”, dos corpos, enfim, essas discussões também atravessam né, tem muitas transversais aí, acho que muito da luta racial e da luta trans, tem muito a ver com a luta PCD sabe, das pessoas com deficiências, acho que têm muitos atravessamentos, que a gente tem que aprender muito com os movimentos que vieram antes, não só dos movimentos de pessoas com deficiência, mas de outros movimentos que vieram. Acho que, essa união fez grande mudança dentro do mercado de trabalho, dentro do mercado audiovisual. E acho que essa união que a gente precisa né, enquanto um coletivo de cultura DEF mesmo, pra reivindicar essa presença nossa.

 

Arthur

Giovanni, adorei o que você respondeu, muito bacana. A gente está chegando no fim, mas, eu quero te fazer uma pergunta importante, a gente tem um público de professores. Todas as plataformas, no site do Instituto.

E eu queria te, perguntar uma coisa, que é interessante dentro da escola, porque a escola também produz cultura. Os professores produzem muita cultura. Como é que você vê a arte DEF dentro das escolas, no apoio ou, na lógica da educação inclusiva? Você, já pensou sobre isso, de ver a arte DEF nesse lugar, em uma aula mais dinâmica de, no lugar da produção de cultura também, de uma cultura para todos e todas.

 

Giovanni

O legal, eu acho que o papel do professor é muito importante na vida de qualquer ser humano. Assim, acho que é uma das funções mais desValorizadas e que merecem mais respeito possível. Assim, é uma das profissões que eu mais admiro, e meus pais são professores. Eu tive uma professora incrível que me motivou muito a ir pro mundo das artes, né, que é a Cris Lira, que hoje, até hoje é minha amiga.

E acho que ela teve um papel muito importante assim que, eu lembro que na minha escola, por exemplo, acho que tinha, duas, ou três, pessoas com deficiência, alunos, tinha eu e mais dois talvez. Mas era um modo de lidar, principalmente nas aulas da Cris, acho que no todo nessa escola, mas, é isso, é um contexto de uma, era no contexto de uma escola pequena, uma escola menor, em Osasco né, Grande São Paulo. Tinha um cuidado e um modo de lidar muito natural, pra abordar os temas, sobre a deficiência, mas também pra fazer essas pessoas, esses alunos, participarem de todas as atividades normalmente.

Acho que, a presença de alunos com deficiência fazia uma mudança muito geral nos outros alunos também, né. A minha presença no pátio da escola no interValo, ou jogando o campeonato de futsal junto, ou, a outra pessoa que tinha uma, usava uma lupa pra enxergar a lousa na sala de aula e pedindo para sentar mais pra frente pra poder enxergar. Ou uma pessoa surda que tinha uma outra colega que estava ditando pra ela as coisas mais perto pra ela conseguir anotar. Acho que a presença do corpo com deficiência, a presença muda tudo assim. Então, acho que a presença desses alunos fazia uma grande diferença na formação dos demais alunos.

E essa professora, a Cris Lira, ela dava aulas muito dinâmicas e muito ligadas ao teatro assim. Ela era professora de português, mas ela dava aulas muito dinâmicas. E ali eu descobri uma grande paixão por atuar. Assim, quando eu fui pra cena fazer uma interpretação de um livro, de alguma cena que ela passou, tinha com frequência isso, né. E era isso, eu tava ocupando personagens iguais aos meus amigos. Às vezes eu era o, o, o fazendeiro, e às vezes eu era o menino pobre da fazenda, entende? Tipo, é, eu tava na mesma, no mesmo lugar que os meus companheiros de classe, assim, então, não tinha um olhar tipo, ah, você é  pequeno então só pode fazer a criança ou, você é pequeno, então você não pode fazer o autoritário, o dono da fazenda, sei lá, tô dando um exemplo aqui bem simplista, mas só para exemplificar mesmo assim né, a minha presença junto dos meus colegas nessas atividades de teatro, nessas atividades, de esporte, nessas atividades do cotidiano de uma escola né.

 

Giovanni

E eu lembro, de, não ter referências enquanto professores mesmo, com deficiência, acho que a presença de professores com deficiência, ou de palestrantes, ou de uma, uma aula extra, alguma, alguma peça de teatro feita por um artista DEF, acho que a cultura DEF ela precisa começar a ser abordada de um modo mais integrado dentro da dinâmica de uma escola né, seja nas feiras culturais, nas, nas aulas normais ou numa aula extraclasse assim né, então, acho que a presença faz total diferença. Quando você convive e quando você vê outros corpos com deficiência ali, existindo, dando aula, fazendo, sendo artista, sendo esportista. Acho que isso muda tudo na visão, não só de alunos com deficiência, mas de todos os alunos que estão ali, né.

 

Arthur

É que a professora Talita Virgínia, da Faculdade de Educação da USP, tem uma pesquisa falando sobre a quantidade de professores com deficiência na rede aqui de São Paulo, que é de 0,05. Ela é uma mulher com paralisia cerebral, professora do fundamental um, coordenadora pedagógica em uma escola aqui da rede de São Paulo, é uma rede grande no cenário nacional, mas apontando assim, no cenário, a quantidade de professores com deficiência, também a importância, pra além, de projetos e da presença das crianças, jovens e adultos com deficiência na educação, a presença de professores com deficiência também, né?

Que essas diferentes linguagens que a gente vem falando aqui nesse programa, que esses diferentes corpos também possam apoiar e ampliar formas de, apresentar um conteúdo, apresentar uma aula, apresentar um tema, discutir esse tema, né. Então, esse corpo com deficiência também, nessa tomada de decisão acadêmica também, né, educativa também. É muito interessante o mestrado dela.

 

Flávia

É a apresentação intencional, de referências, né.

É, na ausência de funcionários, educadores, professores com deficiência, a busca intencional por referências, como o Giovanni disse, seja trazendo um convidado, um palestrante, propondo uma atividade externa, existem inúmeras maneiras de trazer pro dia a dia escolar, a referência de pessoas com deficiência, ocupando os diferentes espaços pra que essas crianças cresçam entendendo, desde muito cedo, que, ter uma deficiência não vai definir que tipo de papel, que tipo de profissão, ela pode desempenhar.

 

Flávia

Desde que a gente tenha os recursos mínimos necessários pra que todas se desenvolvam, com equidade. Todo mundo nasceu para ser feliz e cada um pode ser o que quiser ser, né.

Acho que é isso!

 

Arthur

O Giovanni, deixa uma poesia pra gente.

 

Giovanni

Já que a gente está falando sobre DEF, sobre cultura DEF, eu vou ler um poema que foi musicado, que virou música. Que fala justamente sobre o que é DEF né, chama “De fora da norma”. E, é justamente uma brincadeira com essa gíria, com essa, sigla, que diz muito mais do que uma sigla PCD.

E, eu fiz esse poema, que foi justamente pra um projeto musical né, ela, foi um poema já direcionado para virar música, inclusive tem no Spotify, tem nas plataformas musicais, quem quiser ouvir chama “De Fora da Norma”. Mas eu vou ler aqui, já que não tem a batida, que eu vou só ler em formato de poema, mas se quiserem ouvir como ficou a música, acessem lá nas redes. É mais ou menos assim…

“Você sabe o que é DEF?

D, E, F.

Definir o que é DEF, de fato não é tarefa fácil.

É preciso resgatar a ancestralidade que foi apagada covardemente ao longo da história da humanidade, para então seguirmos em frente.

DEF é a possibilidade de pertencer e se reconhecer em uma definição maior do que P, C, D. Essa sigla defasada e excludente.

Deflagrar a falta de acesso nos espaços e a história contada pelos corpos padronizados.

Defronte, definições falhas, termos técnicos, médicos, científicos, o que somos é erráticos.

 

Giovanni

De fora da norma, não seguimos o previsível.

DEF é encarar o futuro de frente, se sentir pertencente.

Celebrar as diversas formas de falar, de fazer, defender o que é deferente.

DEF é termo, gíria, maneirismo, e um modo de pertencer a tudo isso.

DEF é luta para que nos reconheçam enquanto cultura”.

 

Val

HU, HUUUU!

 

Flávia

Parabéns, Giovanni! Todo sucesso do mundo para você. Estamos aqui sempre te acompanhando, te aplaudindo.

Foi uma alegria enorme passar essa horinha com você. Obrigada! Até a próxima!

Valeu, gente!

 

Giovanni

Obrigado vocês gente!

Valeu, Obrigado.

 

Val

Tchau, Tchau!

 

 

 

 

 

Autodescrição

 

Flávia

Eu sou a Flávia Cintra, uma mulher de olhos e cabelos castanhos, cabelos lisos na altura do pescoço. Eu tenho os olhos pequenos, o nariz grande e lábios finos.

Uso um óculos de armação preta, modelo aviador, tô vestindo uma camiseta cinza, uma calça preta, sentada na minha cadeira de rodas motorizada.

 

Val

Eu sou Val Paviatti, uma mulher de pele branca, olhos e cabelos castanhos, cabelos encaracolados.

Uso óculos, hoje eu estou vestindo um conjunto marrom com alguns traços azuis.

 

Arthur

Sou Arthur Calazans, sou homem de 50 anos. Tenho a pele branca, estou com o cabelo curto, a barba cheia. Tenho a sobrancelha grossa, os olhos pequenos.

O meu sinal em libras é o dedo indicador e o polegar sobre a minha sobrancelha.

Tô vestindo uma camiseta bege e uma calça cinza.

Tô na sala da minha casa.

 

Giovanni

Eu sou Giovanni Venturini. Sou um homem sis, com nanismo, de pele clara, cabelo curto, loiro. Bigode loiro, sobrancelha grossa e loira também, olhos azuis, um nariz relativamente grande.

É, tô usando uma camiseta preta, sem manga, e atrás de mim uma parede branca.

 

Val

 

Ficha Técnica Episódio 14, Tema: Arte DEF com Giovanni Venturini

  • A apresentação Flávia Cintra, Arthur Calasans e Val Paviatti
  • Captação de áudio, edição e masterização Uirá Vital.
  • Transcrição Celso Vital e Silva.
  • Site e plataformas digitais
  • Rafael F. Carpi (Jornalista Inclusivo) e Fabrícia Valek.
  • A transcrição desse episódio pode ser traduzida para a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) utilizando a ferramenta Handtalk.

Você ouviu Pessoas Incluindo Pessoas.