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Pessoas Incluindo Pessoas

Referência em inclusão do Brasil, Romeu Sassaki terá a vida contada em livro biográfico

Conheça um pouco das histórias e realizações que farão parte da publicação sobre Romeu Sassaki e sua vida dedicada à inclusão social

Romeu Sassaki está sentado, em escritório, assinando um livro sobre a mesa. Usa camisa branca, calça escura e óculos de grau.
(Foto: Acervo Pessoal. Créditos: Instituto Federal de Brasília - IFB)

Autor de cinco livros e coautor de outros doze, além de ter traduzido incontáveis obras da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da ONU, das Universidades de Harvard e de Minnesota, o professor Romeu Kazumi Sassaki já publicou mais de 150 artigos, ministrou 242 palestras e 37 cursos sobre inteligências múltiplas e as dimensões da acessibilidade. “Só de fevereiro a outubro de 2021, participei de 56 eventos online (entre palestras, entrevistas, cursos, reuniões e consultorias técnicas)”, contou.

Nome sempre lembrado em debates sobre a inclusão das pessoas com deficiência, agora Romeu terá a vida retratada em livro. “Três amigos meus, ativistas no movimento de luta pelos direitos das pessoas com deficiência, estão gravando meus depoimentos para a elaboração de uma obra biográfica”, revelou o assistente social no auge dos seus 83 anos.

Recentemente, Sassaki fez uma análise minuciosa de todos os artigos e incisos do Decreto 10.502/2020, da Política Nacional de Educação Especial

“Quando o Supremo Tribunal Federal suspendeu a validade e abriu uma Audiência Pública, fui um dos expositores habilitados pelo STF para defender a minha posição pela revogação imediata do tal Decreto do Ministério da Educação. Se baixarmos a guarda, esse Decreto ainda poderá ser liberado, mesmo constituindo um retrocesso monumental”, alertou.

Romeu Sassaki, homem branco com traços orientais e calvo. Usa óculos de grau e camisa branca, durante palestra em 2013.
Romeu Sassaki foi contratado pelo Governo Brasileiro como tradutor oficial da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. (Foto: Acervo Pessoal. Créditos: Everson Bressan/SMCS)

Homem de espírito valente, Romeu nasceu vencendo obstáculos

Primogênito do casal de imigrantes japoneses, Sra. Miki Sassaki e Sr. Miyoji Sassaki, Romeu teve cinco irmãs: Deborah, Midori, Doris, Mary, Emi e Edson. “Infelizmente, Emi e Edson faleceram”, lamentou ao contar um pouco mais sobre a sua história.

Na década de 1930, com a escassez de mão de obra especializada na lavoura, o Brasil recebia imigrantes do Japão para trabalhar na agricultura e pecuária. Depois de 52 dias viajando de navio, da cidade de Sapporo, província de Hokkaido, os pais de Romeu desembarcavam no porto de Santos.

Romeu nasceu em 29 de julho de 1938, em casa – como era de costume entre as mulheres japonesas. Mas, como o casal vivia na zona rural de Campo Grande (MS), onde não havia uma parteira disponível, seu pai foi o responsável por fazer o parto. “Quando minha mãe estava dando à luz, meu pai percebeu que o cordão umbilical estava enrolado no meu pescoço eu já estava com o rosto arroxeado. Passei por um grande perigo, mas deu tudo certo”, contou.

Dias após o parto, quando estavam a caminho da cidade para registrar o filho com o nome de Kazumi Sassaki, o dono da fazenda onde moravam, que era um homem inglês, disse que a criança precisava de um nome ‘cristão’. Como seus pais eram budistas, pediram uma sugestão ao fazendeiro, que também não lembrava de nenhum nome bíblico. Aos risos, Sassaki conta que naquele momento, o fazendeiro olhou para o gado no pasto, e apontou para o touro que chamavam de “Romeu, o matador”.

Foto de Romeu Sassaki, em formato circular. Usa casaco azul marinho, camisa jeans e óculos de grau.
Sassaki foi o primeiro profissional do Brasil a receber informações sobre a Metodologia do Emprego Apoiado, que surgiu nos EUA em 1986. (Foto: Acervo Pessoal. Créditos: Reprodução/YouTube)

O legado de um profissional reconhecido internacionalmente

Coincidência ou não, o espírito valente do “matador” se fez presente em sua trajetória. Desde 1960, Romeu protagoniza a luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Como profissional e como voluntário, ele fez parte da construção de um novo paradigma, o da Sociedade Inclusiva. Esse é o nome do projeto lançado em 2020 no Apoia.se, que disponibiliza vasto material técnico focado na Inclusão de pessoas com deficiência.

Sassaki foi o primeiro profissional do Brasil a receber informações sobre o ordenamento jurídico e a prática da Metodologia do Emprego Apoiado, que surgiu nos EUA em 1986. Como os materiais chegavam em inglês, ele traduziu voluntariamente todo conteúdo durante décadas para distribuí-lo gratuitamente. Assim, Romeu criou o Grupo de Emprego Apoiado, que depois se transformou na Rede de Emprego Apoiado e, em 2014, deu origem à Associação Nacional do Emprego Apoiado (Anea). “Fui presidente da Anea nas gestões de 2014-2016 e de 2016-2018. Desde 2019, sou um dos conselheiros consultivos”, completou.

Motivo de satisfação pessoal para Sassaki, foi ter sido contratado pelo Governo Brasileiro como tradutor oficial da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), que mais tarde lhe garantiu vaga para traduzir o boletim mensal UN Enable Newsletter, do Secretariado da CDPD, desativado em 2018. Sassaki traduziu nove edições consecutivas do boletim, sendo que a primeira foi publicada em dezembro de 2017.

“Lembro-me de ler a edição em inglês de novembro de 2017, e havia uma solicitação para que um voluntário se apresentasse para traduzir as próximas edições do boletim para a língua portuguesa. Apresentei meu currículo com duas realizações – como Bolsista da ONU nos EUA e no Reino Unido e como Tradutor Oficial da CDPD. E não é que fui imediatamente autorizado? Mesmo não sendo remunerado, me dediquei de corpo e alma às traduções, pois é motivo de muito orgulho e prestígio o fato de os países-membros da ONU saberem que Romeu Sassaki estava traduzindo em benefício de todos os países lusófonos”, confessou.

Romeu Sassaki: As voltas que a vida dá a quem se permite

Antes, porém, ainda no Ensino Médio, Sassaki sonhava em cursar Direito e Diplomacia. Mas, uma viagem com um amigo ao interior paulista o fez mudar ideia. Ele ouviu com atenção o lamento da mãe de outro colega que acabara de conhecer. “Aquela senhora se encontrava bastante envergonhada e deprimida. Ouvi toda história sobre problemas com suas duas filhas, que ela contava sob forte emoção e incontido choro. Ela me agradeceu repetidas vezes por ter prestado atenção e respeitado seu desabafo”, lembrou.

Foi na viagem de volta à capital de SP, que Sassaki decidiu desistir do Direito e da Diplomacia para se inscrever no Curso de Serviço Social, que no final da década de 50, ainda era um curso desconhecido. “No último dia de aula do Ensino Médio, um grupo de rapazes que diziam ser alunos de Serviço Social entrou na sala para explicar o papel do assistente social e distribuiu folhetos da faculdade. Guardei um folheto sem imaginar que um dia eu procuraria o endereço que constava ali”.

Para Sassaki, fez muita diferença ter a oportunidade de estudar na escola regular com dois colegas com deficiência. Um deles foi o Ubirajara Fortes, o único aluno que tirava nota máxima em todas as matérias e que tinha uma deficiência severa. O outro foi o Washington da Silva. No início do primeiro ano letivo, ele e eu tiramos notas baixas. Então, eu fui à casa dele na véspera de todos os exames bimestrais para recordarmos as lições e, a partir desse esquema, passamos a obter boas notas”, recorda.

Essas e outras histórias serão contadas no livro que ainda não tem data de lançamento prevista e promete ser imperdível.

Antes de encerrar 2021, em 6 de dezembro, Sassaki recebeu o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em reconhecimento aos mais de 60 anos dedicados à promoção da inclusão das pessoas com deficiência.

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Publicado em: 15/12/2021

Edição: Flávia Cintra Entrevista: Rafael Ferraz

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