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Elza Ambrosio conta sua trajetória pela inclusão de pessoas com deficiência 

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Foto de Elza Ambrosio, uma mulher negra, de cabelos curtos cacheados e em tor avermelhado. Ela olha para a direita com uma expressão contemplativa.

Foto: Acervo pessoal. Créditos: Elza Ambrosio

Por Elsa Villon

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado no dia 21 de setembro desde 1982, graças aos movimentos sociais que batalham pela garantia de direitos dessa população na década anterior. Em 2005, a data foi oficializada pela Lei nº 11.133, além de coincidir com o início da primavera. 

Foi no início da década de 1980 que Elza Ambrosio, idealizadora do Museu da Inclusão em São Paulo, passou a participar do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência. Atualmente aposentada, ela é viúva de Rui Bianchi do Nascimento, importante militante que atuava em diversas frentes da causa pela inclusão e acessibilidade. 

Natural de Cotia (SP), ela se mudou para a capital paulista para estudar letras e iniciou sua jornada no movimento social em 1981, Ano Internacional da Pessoa com Deficiência. Sua aproximação com a causa ocorreu graças à colega com quem dividia o apartamento, que tinha uma deficiência: “Ela me falou da data e participava de reuniões sobre o tema. Até então, eu não tinha muita noção do que ela falava, porque nunca tinha conhecido pessoas com deficiência. Logo, comecei a participar e entrei junto nessa luta. Então, eu conheci o Rui Bianchi e me casei com ele, muitos anos depois”. 

Na época em que se conheceram, os dois eram estudantes e participavam de reuniões na Universidade de São Paulo (USP). Rui, que cursava biblioteconomia, era uma das lideranças dentro do movimento e lutava pela acessibilidade arquitetônica dentro das instalações das faculdades, como prédios e estacionamentos. “Ele foi aluno da Escola de Comunicação e Artes (ECA) por dez anos, primeiro com a faculdade e depois com o mestrado em jornalismo. E não tinha acessibilidade. Ele não chegou a usar o elevador que hoje existe lá”, relembra. 

Ao lado do então namorado, Elza passou a se engajar cada vez mais com o movimento e acompanhar a luta das pessoas com deficiência. Romeu Sassaki, considerado o pai da acessibilidade no Brasil; Maria de Lourdes Guarda, fundadora da Federação Cristã das Pessoas com Deficiência (FCD Brasil); e Cândido Pinto de Melo, líder estudantil que sofreu um atentado durante a ditadura militar, são alguns dos nomes que marcaram a trajetória do casal e do país na garantia de direitos das pessoas com deficiência.  

A mobilidade como chave para a inclusão 

Segundo Elza, Rui costumava dizer que uma pessoa com deficiência se depara com três grandes obstáculos: adquirir a identidade de pessoa com deficiência; convencer a família de que, a despeito da deficiência, tem os mesmos direitos que as demais pessoas; e, por último, convencer a sociedade. O militante nasceu com osteogênese imperfeita, doença mais conhecida como “ossos de vidro” e precisou amputar as pernas, se tornando usuário de cadeira de rodas. 

Um dos grandes problemas enfrentados pela população com deficiência física na época era a mobilidade urbana em São Paulo. Sem acessibilidade arquitetônica nas ruas, nos ônibus e estações de metrô, o deslocamento e locomoção eram mais restritos, considerando que carros adaptados não eram uma realidade no Brasil. “Essa virada de chave foi muito importante para o Rui. O sair de casa, ter essa liberdade de movimento. Ele sempre quis dirigir e teve que fazer o teste cinco vezes para tirar a carteira de habilitação, porque não haviam muitos motoristas com deficiência na época”, destaca.  

Após Rui conseguir a habilitação e seu primeiro veículo totalmente adaptado – um Landau amarelo –, ele e Elza passaram a priorizar as pautas referentes ao transporte. Depois de muitas reuniões, projetos e pressão sobre os governantes, foi lançado o projeto Atende, em 1996, serviço que oferece transporte gratuito para pessoas com deficiência física severa, surdocegueira e autismo na cidade de São Paulo. 

Nós sempre dizemos que, para a pessoa com deficiência ter o mínimo de qualidade de vida, ela tem que ter acesso ao tripé: saúde, educação e transporte. O transporte entra nesse tripé porque, sem isso, não há acesso nem à saúde e nem à educação”, pontua. 

As conquistas das últimas décadas 

Elza reconhece os avanços nas últimas décadas, considerando que sua militância começou há 40 anos e a realidade era bem diferente. Além da acessibilidade no transporte, ela cita a questão da saúde, principalmente com a oferta de medicamentos: “Havia uma pesquisa nos Estados Unidos sobre o uso do pamidronato, que evitava fraturas em quem tem osteogênese imperfeita. Lutamos para garantir que o SUS deveria oferecer esse medicamento à população, principalmente crianças”. 

Outro ponto de destaque é a inclusão de crianças e adolescentes com deficiência nas salas de aulas regulares, uma luta que merece atenção: “Nós brigamos até hoje pela educação inclusiva, mas com grandes avanços. E o Rodrigo Mendes é a prova disso, ele sempre foi um grande batalhador pela acessibilidade na educação”.  

O acesso às informações sobre os direitos das pessoas com deficiência também são um ponto destacados por ela, que acompanhou o trabalho do marido para garantir a disseminação dessa informação antes mesmo da criação da internet: “O Rui criou um centro de documentação, em 1990, justamente para informar as entidades e a população sobre seus direitos. Havia um sistema entre bibliotecas que trocava informações em rede, que depois foi integrado à internet. Ele datilografava esse boletim e enviava às organizações de todo o país antes disso”. 

Com a disseminação da internet no país, entre 1996 e 1997, foi criado um site com o mesmo propósito. O Centro de Documentação e Informação da Pessoa com Deficiência Rui Bianchi (CEPOD) está fora do ar atualmente, em fase de reformulação para voltar a oferecer os registros devidamente formalizados e atualizados. 

Mesmo com as conquistas, ela defende que é preciso seguir lutando pela garantia de direitos. Faltam por exemplo questões de acessibilidade arquitetônica, não tão presentes fora dos grandes centros e concentradas principalmente em São Paulo: “Quando falamos de outros estados, a acessibilidade é muito pouca ou nenhuma. Se a gente briga porque é muito pouco, em alguns estados é nada”. 

De exposição a memorial, de memorial a museu 

A visibilidade pela luta do movimento das pessoas com deficiência aumentou ainda mais em 2009, graças à criação do que se tornou, hoje, o Museu da Inclusão. Pensado inicialmente como uma exposição dentro do Memorial da América Latina em São Paulo, o projeto nasceu em agosto e foi lançado em dezembro do mesmo ano, com duração para visitação de três meses. 

Idealizadora da exposição, Elza não esperava tamanha repercussão quando apresentou a ideia e era um projeto engavetado há muito tempo. “A minha proposta foi fazer uma exposição que contasse a história desse movimento social”, comenta. Com a procura do público, a exposição se tornou o memorial até que, no final de 2019, virou o Museu da Inclusão por decreto de lei. 

Para Elza, a maior conquista com o projeto foi a possibilidade de realizá-lo trazendo luz ao movimento social de maneira permanente, com um espaço dedicado à histórica luta dessa população que, segundo ela, ainda sofre com barreiras, principalmente atitudinais e discriminação.  

Por fim, ela enfatiza a importância não apenas de projetos como o Museu da Inclusão, mas do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência como oportunidade para trazer visibilidade histórica ao movimento: “É uma forma de dizer: ‘Oi, eu existo, estou aqui, tenho os mesmos direitos que você de ocupar os mesmos espaços, estudar nas mesmas escolas, frequentar os mesmos lugares públicos’. De dizer que existem pessoas diferentes e que deveriam ter os mesmos direitos”. 

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