Ricardo Shimosakai e os destinos acessíveis em contato com o meio ambiente 

Foto: acervo pessoal. Créditos: Ricardo Shimosakai

Por Elsa Villon


O Dia da Educação Ambiental, comemorado no último dia 3 de junho, para muitas pessoas, pode ser uma oportunidade para se conectar com a natureza em algum destino especial. Mas, para pessoas com deficiência, isso pode ser um impedimento, considerando as questões de acessibilidade.
 


Pensando nisso, o turismólogo e empresário Ricardo Shimosakai criou, em 2010, a Turismo Adaptado, empresa voltada ao lazer e turismo com destinos inclusivos para pessoas com deficiência. Um pouco antes da pandemia, ele decidiu ampliar os negócios e passou a atuar também com consultorias e palestras sobre acessibilidade e inclusão.
 


Em seu
site e blog, é possível conhecer um pouco da sua atuação: são mais de 100 mil capacitações em acessibilidade, 280 palestras ministradas, 118 consultorias a empresas e 30 países visitados. “O meu produto é o meu conhecimento, que eu compartilho por meio de consultorias, palestras, cursos, aulas e treinamentos”, afirma.  


A história com o lazer e o turismo começou em 2001, quando Ricardo ficou paraplégico. Durante sua reabilitação, ele percebeu que os passeios e
as viagens eram seus maiores prazeres: “Era uma coisa para mim, sem pensar em negócios ou qualquer tipo de ajuda para outras pessoas, mas isso acabou interessando alguns amigos, que queriam saber como eu viajava, e foi quando eu vi que não era um desejo só meu”. 


As pessoas passaram a se interessar cada vez mais pelo assunto
, e isso fez com que Ricardo decidisse estudar turismo e trabalhar com foco na inclusão de pessoas com deficiência. “O turismo é algo bem complexo e envolve muita coisa, desde transporte, os hotéis, os guias, as agências… é um quebra-cabeça. O que eu procurava ver é a questão de destinos acessíveis, porque não adianta você ter só um hotel acessível, por melhor que ele seja. E o restaurante, o transporte e tudo mais? Você deve conseguir sair da sua casa e voltar com o máximo de acessibilidade possível”, pontua o empresário. 


Novos jeitos de viajar


Após concluir a faculdade, Ricardo decidiu começar a trabalhar com turismo nas horas vagas, até 2010, quando largou tudo e foi viver somente do turismo. Para ele, a oportunidade de mercado é válida, considerando que tudo relacionado às pessoas com deficiência é um mercado em expansão.

 

No entanto, um dos principais problemas no setor é a falta de informação sobre destinos acessíveis no Brasil. Segundo ele, muitas pessoas viajam para destinos internacionais por conta do destaque à acessibilidade. “Quase não há informações sobre isso, mesmo com o volume de ofertas. Já vi opções muito boas, só que não há informações no site, e a internet é a primeira fonte para quem procura destinos acessíveis”, comenta. O empresário conta que já abordou o assunto com serviços como o TripAdvisor, recomendando otimizações nos dados sobre acessibilidade nos destinos.

 

Outro ponto levantando é a questão de as pessoas estarem presas às normas da ABNT: “Quando se trata da natureza, é preciso sair um pouco das normas técnicas, como a ABNT 9050 como única referência de acessibilidade. Ela só é feita para edificações e a natureza é outra coisa, nem poderia ter normas. É aí que entram as tecnologias assistivas, como as cadeiras anfíbias, cadeiras para trilhas e outros equipamentos”. 


A capacitação de profissionais para o atendimento também é fundamental de acordo com Ricardo. Em Bonito, no Mato Grosso do Sul, ele realizou treinamentos com guias para atender pessoas com deficiência. “O guia precisa conhecer a pessoa com deficiência, saber suas necessidades e, às vezes, ter criatividade para solucionar algumas situações”, destaca.
 


Opções de destino acessíveis


Como bom turista e turismólogo, Ricardo é uma fonte de saberes para quem quer viajar para destinos em contato com a natureza de forma acessível. Um deles é o Parque dos Sonhos, em Socorro, no interior de São Paulo, um complexo turístico que é considerado por um muitos um modelo de acessibilidade. Ricardo enfatiza, no entanto, que é preciso estar atento: “A cidade em si não é um modelo de acessibilidade, só o complexo turístico”.

 

Para quem busca aventura, ele recomenda Bonito, que conta com guias capacitados e muitas opções de passeios. Fernando de Noronha, em Pernambuco, também conta com acessibilidade: “Há questões de mergulho adaptado, uma prática bem antiga em que é possível incluir todos os tipos de deficiência”.  
 

Já para os amantes de praias, o empresário recomenda Santos, em São Paulo, Aracaju, em Sergipe, e Maceió, em Alagoas, que contam com projetos de praias adaptadas. E, para quem pensa em embarcar para fora do país, Cancún, no México, é um destaque em acessibilidade: “Ali há receptividade ao tema, com uma agência muito boa, e o México tem feito muitos movimentos bons em relação ao turismo”. 


Na Europa, dois países são destaque: a Espanha, com Palma de Maiorca, e a Alemanha, que, de maneira geral, tem investido muito na acessibilidade. “A Alemanha é o melhor país que trabalha a questão do turismo acessível. Não fui tanto para destinos de natureza, mas mais para espaços urbanos e eu sei que eles estão preparados”, pontua.
 


Passos importantes para o setor

Ricardo é enfático ao abordar o turismo para pessoas com deficiência: as próprias agências podem ser uma barreira. De acordo com o empresário, muitas acreditam que são preparadas para atender a esse público, quando não estão: “Se você buscar uma agência convencional, ela pode te trazer alguma decepção”.

 

Para ele, é muito mais válido procurar dicas de outras pessoas com deficiência, pesquisando na internet em blogs e no Instagram, além de entrar em contato com elas para falar sobre os passeios e as viagens feitas. 

 

O empresário também opina sobre o motivo de empresas e agências ainda não estarem capacitadas para lidar com esse público: “O comércio e as empresas têm muito dinheiro e pensam: ‘O que eu vou ganhar com isso?’. A imagem que eles têm é de uma pessoa só vai te dar muito trabalho, demandar muito investimento”.

 

A falta de acessibilidade também prejudica o turismo de estrangeiros que querem conhecer o Brasil, que acabam desistindo pela falta de informações. “Na Europa, fizeram uma pesquisa que indica que eles faturam bilhões de euros por ano com turismo acessível. O Brasil não está preparado. Para convencer as empresas, seria uma reeducação não só do turismo, mas uma questão geral. Tem que ver a pessoa com deficiência como um consumidor. Não há problema nenhum em você querer ganhar dinheiro, desde que você faça o trabalho direito”, menciona.

 

A dica para pessoas com deficiência que querem se aventurar em destinos acessíveis, com contato ao meio ambiente ou urbanos, é se manifestar: “Muitas pessoas vão à lugares e têm problemas, não apenas para o turismo, mas de maneira geral, e voltam para casa chateadas, mas não relatam para a empresa. Eu mudei a minha forma de pensar, pois eu não acho que eu estou reclamando, eu estou educando. É só falar com educação. Se ficarmos quietos, as coisas não acontecem. O pessoal não enxerga a necessidade”, finaliza. 

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