A atenção no atendimento à saúde da mulher com deficiência 

Foto de Nayara Rodrigues da Silva, uma mulher negra, com cabelos longos com dread, olhando na direção da Cãmera e Sorrindo
Nayara Rodrigues da Silva é surda e utiliza aplicativo com intérprete em libras nas consultas

Foto: acervo pessoal. Créditos: Nayara Rodrigues da Silva

Por Elsa Villon

A saúde da mulher se tornou um tema de muita visibilidade na sociedade, com campanhas preventivas e atendimentos especializados. E há uma data exclusiva dedicada ao assunto: 28 de maio, Dia Internacional de Ação pela Saúde da Mulher, que ocorre desde 1984, a partir do IV Encontro Internacional Mulher e Saúde, realizado na Holanda. 

 

O debate surgiu durante o Tribunal Internacional de Denúncia e Violação dos Direitos Reprodutivos, que indicou altos índices de morte materna. No encontro seguinte, realizado na Costa Rica, foi estabelecida a data e uma temática anual que incentivaria ações de políticas públicas para prevenir mortes maternas evitáveis. 

 

Indo além da questão da maternidade, é importante destacar a importância da saúde da mulher em qualquer etapa da vida. E isso vale para a saúde da mulher com deficiência que, muitas vezes, enfrenta dificuldades nos serviços de atendimento. No município de São Paulo, por exemplo, mesmo com uma área dedicada exclusivamente à saúde da mulher, os desafios ainda são muitos, principalmente em termos de acessibilidade. 

 

As barreiras no atendimento

 

Para Nayara Rodrigues da Silva, de 32 anos, moradora do Cupecê, bairro da zona sul de São Paulo, uma das principais barreiras é a comunicacional. Ela é surda e utiliza o aplicativo ICOM, com intérpretes em vídeos para passar por consultas e atendimentos. 

 

No entanto, nem todos os profissionais de saúde compreendem a necessidade no atendimento especializado: “A maioria dos médicos não gosta de se comunicar por aplicativo por achar que estamos gravando para expô-los, mas não é verdade”, explica. A baixa recepção do sinal de celular dentro de hospitais e postos de atendimento também é uma dificuldade comentada por Nayara, pois prejudica o funcionamento do aplicativo. Sem acesso à rede de internet móvel, ela geralmente precisa do acesso ao wi-fi dos espaços, o que nem sempre é oferecido.  

Foto de Célia Corrêa, em close, ela é uma mulher branca, de cabelos claros e olha na direção da câmera
Célia Corrêa é cadeirante e conta com auxílio para subir em mesas e macas de exames

Nayara afirma que, muitas vezes, contrata o serviço de intérprete para acompanhá-la nas visitas médicas e mediar a interação com os profissionais. Ela aponta também outra dificuldade encontrada, principalmente durante a pandemia: “Há a questão das máscaras, que não permitem que eu faça a leitura labial”. 

 

Já para Célia Corrêa, de 56 anos, moradora de Santana, zona norte de São Paulo, as barreiras são físicas. A jornalista utiliza cadeira de rodas e ressalta a falta de acessibilidade nos consultórios médicos: “Para fazer o exame de papanicolau, preciso ir direto no laboratório, que também não tem acessibilidade, mas os enfermeiros me pegam no colo para colocar na maca de exames”. 

 

Além das macas, há impedimentos também nas camas ginecológicas, aparelho de raio-X e o próprio equipamento para o exame de mamografia, que não são adaptados pensando nas necessidades de pessoas em cadeiras de rodas e são de difícil acesso. 

 

A espera por exames e consultas

Uma queixa comum também é a espera para consultas e exames. Para Célia Bernadete Messias, de 50 anos, pedagoga aposentada e professora de sapateado, o tempo de espera é muito alto. Moradora da Vila Antonieta, bairro da zona leste de São Paulo, ela conta que há exames com espera há mais de três anos: “Muitas vezes, há o retorno da consulta e ainda não consegui passar pelo médico, por isso, acabo passando no particular”. 

 

A professora é cega e diz que não conta com grandes barreiras de acessibilidade, mas está sempre acompanhada nos atendimentos. Ela conta com o apoio da família também na hora de consultar os resultados online, pois não acessa o computador, somente o celular. 

 

Célia Corrêa afirma que só conhece um hospital adaptado para consultas e exames, mas que nunca conseguiu marcar seus compromissos pela falta de agenda do local.  

 

A jornalista também menciona o despreparo dos profissionais da saúde em relação às questões ligadas à sexualidade das mulheres com deficiência. “Apesar de tantas conquistas, ainda há um caminho longo para se percorrer quando falamos de saúde da mulher”, pontua. 

 

Melhorias à vista

 

Para Nayara, houve uma leve melhora ao longo dos anos, graças à tecnologia e ao desenvolvimento de aplicativos de vídeo, que facilitam a comunicação com os surdos. No entanto, ela acredita que é preciso ir além: “Gostaria que os hospitais, e a área de saúde como um todo, contratasse consultoria de libras e acessibilidade para proporcionar melhores condições de atendimento para todas as mulheres com deficiência, além de ensinar o básico em libras”. 

 

Foto de Célia Bernardete, uma mulher negra, de cabelos longos e escuros. Ela está de pé, próxima à uma janela, sorrindo com as mãos na cintura
Célia Bernardete é cega e conta que a unidade de atendimento próxima à sua casa conta ccom piso tátil

Já para Célia Corrêa, é preciso um novo olhar e outros contextos assistenciais com práticas de saúde ampliadas para que os serviços e equipes profissionais possam atender às questões que permeiam as necessidades da saúde dessas mulheres. 

 

Célia Bernadete afirma que ocorreram melhorias, principalmente nas instalações de piso tátil na unidade de saúde próxima da sua casa. Para ela, o principal ponto para a melhoria é a humanização dos profissionais: “Uma atenção um pouco maior e uma certa paciência, porque podemos demorar um pouco mais para fazer as coisas”. 

 

A professora também defende a especialização de profissionais, para que possam oferecer mais auxílio no atendimento à mulher com deficiência durante o acesso aos locais para consultas e exames. “Eu vou tateando e consigo subir e me posicionar, mas para uma cadeirante, isso já é mais difícil. Seria necessário uma pessoa a mais para ajudar”, finaliza. 

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