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A história de Renato Laurenti e o repórter SACI

Summary

Com a missão de levar informação sobre inclusão e acessibilidade, Renato Laurenti conta sua trajetória como repórter Saci 

Foto: Renato Laurenti. Créditos: Arthur Calasans

Por Elsa Villon

A vida de Renato Laurenti é como a de muitas pessoas criadas na cidade. Ao lado do irmão mais velho, cresceu na região da Vila Sônia, zona sul de São Paulo. Sua infância foi marcada por viagens de carro para o interior do estado, até a aquisição de um terreno em Ubatuba, no litoral norte paulista. 

No início da fase adulta, Renato iniciou seus estudos no curso de Educação Física. “Sempre pratiquei esportes, desde criança. Foi algo natural, porque eu sempre gostei muito de esportes”, comenta a escolha. 

Sua trajetória de vida mudou quando, aos 22 anos, sofreu um acidente de carro em Ubatuba e ficou tetraplégico: “Em um dia você está se movimentando normalmente e, no outro, não consegue mexer mais nada. Até você entender o que está acontecendo não é muito fácil”. 

Ele não chegou a concluir a graduação em Educação Física e seu foco passou a ser na recuperação, quando chegava a fazer 14 horas diárias de fisioterapia e exercícios. Mas a realidade foi outra: não seria possível voltar andar, como ele tanto almejava. 

Para Renato, foi um momento de introspecção e pausa na vida, onde ele acabou se isolando das pessoas ao seu redor. “Na época, eu sentia vergonha até de sair de casa e fiquei muito tempo parado, sem fazer nada. E então surgiu uma amiga, que precisava de alguém para ajudar no trabalho dela e me chamou. A partir daí, eu comecei a trabalhar e voltar a ter contato com as pessoas. Só então eu deixei de pensar na minha deficiência como um impedimento, mas a conviver com ela”, explica. 

Novos horizontes e o Repórter SACI

Ciente de sua nova condição, Renato percebeu que muitos dos seus pensamentos sobre a deficiência em si se mostravam equivocados: “Eu achava que era impossível eu namorar ou alguém gostar de mim. Até acontecer”. Ele percebeu que era sim possível voltar a ter uma vida produtiva e feliz como todo mundo. 

Em 1984, começou a trabalhar em um projeto de uma empresa que prestava atendimento nas escolas. Algum tempo depois, veio o convite para participar da Rede SACI, projeto idealizado por Marta Gil, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), pelo programa de extensão USP Legal. 

A Rede SACI tem origem em um serviço pré-internet, via telefone, com um sistema de informação sobre deficiências. Em 2000, com a disseminação da internet e dos computadores, o serviço virou um site. Com ele, nasceu a ideia do Repórter Saci. “Eu visitava espaços públicos e privados e via a questão da acessibilidade e como as pessoas estavam preparadas ou não para receber o público com deficiência”, conta. 

 Agora repórter, ele comenta que o que mais marcou sua época na Rede SACI era a falta de informação sobre as pessoas com deficiência: “Em uma ocasião, chegaram a tentar me agredir quando eu questionei sobre o uso de uma vaga destinada à pessoa com deficiência, uma falta de respeito total. Hoje em dia não se vê tanto, deu uma melhorada, mas ainda estamos longe do ideal”. 

O legado da Rede SACI

Se haviam momentos difíceis, a Rede SACI teve um papel muito importante no trabalho de conscientização sobre a inclusão de pessoas com deficiência. “Foram muitos momentos bons, porque vimos que estávamos fazendo um trabalho legal e éramos recebidos por pessoas que agradeciam e percebiam que a acessibilidade não é para ser bonzinho, mas porque é um público consumidor. Então, se você tem acesso e divulga, uma pessoa avisa a outra e a rede vai aumentando”, destaca. 

Para Renato, o maior legado foi a divulgação da causa da acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência, transmitindo informação e mostrando que é possível conviver com deficiência e participar da sociedade como todo mundo. 

Seu papel como Repórter SACI durou por seis anos, até ele decidir tocar outros projetos. Mas o trabalho realizado é perpetuado até hoje. Questões como a acessibilidade arquitetônica dos espaços, públicos e privados, são um dos principais avanços apontados por Renato.  

As barreiras atitudinais também são destacadas por ele: “Quanto mais contato você tem com pessoas com deficiência, mais corriqueiro se torna. Perde-se aquele olhar capacitista sobre uma pessoa na cadeira de rodas, isso se torna normal. Hoje já temos comerciais, novelas e cada vez mais espaço na televisão, o que é importante”, finaliza. 

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