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Carne, osso, alumínio, bateria e sangue nas veias

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Foto de óculos de realidade aumentada dispostos em cima de uma mesa

Foto: Pexels. Créditos: Justin Doherty

Por Flávia Cintra

A experiência mais maluca que tive nos últimos 30 anos foi entrar no quadro do Van Gogh usando aqueles óculos de realidade virtual. Sei que isso não é novidade, mas sou alienada aos assuntos relacionados a games e eu nunca tinha experimentado essa tecnologia. A oportunidade surgiu numa dessas exposições cheias de interatividade digital que fui visitar com meu marido e filhos.

Coloquei os óculos e a mágica aconteceu, fui parar em outro lugar. Era um salão colorido, com obras de arte nas paredes, piso de madeira e móveis antigos. Ao mesmo tempo em que eu estava maravilhada com o que via, fiquei incomodada ao me sentir alta demais na cadeira de rodas. Era pior quando eu me movimentava, sentia um tipo de vertigem. Lembrei que existe um modelo de cadeira que aumenta a altura e fiquei aliviada por não tê-la comprado, pois achei horrível a sensação de insegurança em andar vendo tudo tão lá do alto. “Como conseguem?”, pensei.

Entrei num corredor e vi um banheiro ao fundo, ao lado de uma escada, com uma porta bem estreita. Fui até lá apenas para dar uma espiada. Quando percebi, eu já estava dentro do banheiro minúsculo. “Como foi possível que minha cadeira passasse por uma porta tão estreita?”. Aí eu lembrei que estava num jogo e concluí que a porta devia ter se “adaptado” à minha largura, me permitindo entrar. Ah, se fosse assim no mundo real… seria incrível!

Ao sair do banheiro, de marcha ré, ouvi meu marido dizer ao longe: “Ela está manobrando como se estivesse na cadeira”. Não dei atenção e voltei de ré porque o corredor era estreito demais para virar.

Na volta, passei de novo pela escada e estiquei o pescoço, curiosa para tentar ver o que havia lá em baixo. Observei por alguns instantes e segui para outra sala onde um homen tocava piano. Lembro de ter criticado em pensamento a falta de acessibilidade dentro do jogo, mas preferi continuar na direção do que era possível.

Em nenhum momento considerei descer a escada. Em nenhum momento cogitei que a altura do meu olhar era a de alguém de pé. Não existia a minha cadeira ali, eu estava num “avatar” sem deficiência e eu poderia, sim, ter descido a escada! Mas só pensei nisso tudo depois de tirar os óculos.

Foi perturbador. Foi engraçado. Me fez pensar no que chamamos de autoimagem e sobre o quanto ser tetraplégica é, hoje, incorporado no jeito que vejo o mundo e interajo com os espaços. Eu espero muito mais pelo dia em que todos os lugares me recebam bem do que pela notícia da cura da lesão medular. Porque hoje, essa sou eu de carne, osso, alumínio, baterias e sangue nas veias.

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